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terça-feira, 20 de dezembro de 2011



Nome: 
Erico Verissimo
Nascimento:
17/12/1905
Natural:
Cruz Alta - RS
Morte:28/11/1975

Erico Verissimo

Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra
mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’.” 

(O escritor diante do espelho)


Erico
 Lopes Verissimo nasceu em Cruz Alta (RS) no dia 17 de dezembro de 1905, filho de Sebastião Verissimo da Fonseca e Abegahy Lopes Verissimo.

Em 1909, com menos de 4 anos, vítima de meningite, agravada por uma broncopneumonia, quase vem a falecer. Salva-se graças à interferência do Dr. Olinto de Oliveira, renomado pediatra, que veio de Porto Alegre especialmente para cuidar de seu problema.

Inicia seus estudos em 1912, freqüentando, simultaneamente, o Colégio Elementar Venâncio Aires, daquela cidade, e a Aula Mista Particular, da professora Margarida Pardelhas. Nas horas vagas vai o cinema Biógrafo Ideal ou vê passar o tempo na Farmácia Brasileira, de seu pai.

Aos 13 anos, lê autores nacionais — Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, Afrânio Peixoto e Afonso Arinos. Com tempo livre, tendo em vista o recesso escolar devido à gripe espanhola, dedica-se, também, aos autores estrangeiros, lendo Walter Scott, Tolstoi, Eça de Queirós, Émile Zola e Dostoievski.

Em 1920, vai estudar, em regime de internato, no Colégio Cruzeiro do Sul, de orientação protestante, localizado no bairro de Teresópolis, em Porto Alegre. Tem bom desempenho nas aulas de literatura, inglês, francês e no estudo da Bíblia.

Seus pais separam-se em dezembro de 1922. Vão — sua mãe, o irmão e a filha adotiva do casal, Maria, morar na casa da avó materna. Para ajudar no orçamento doméstico, torna-se balconista no armazém do tio Americano Lopes. Os tempos difíceis não o separam dos livros: lê Euclides da Cunha, faz traduções de trechos de escritores ingleses e franceses e começa a escrever, escondido, seus primeiros textos. Vai trabalhar no Banco Nacional do Comércio.

Continua devorando livros. Em 1923. Lê Monteiro Lobato, Oswald e Mário de Andrade. Incentivado pelo tio materno João Raymundo, dedica-se à leitura das obras de Stuart Mill, Nietzsche, Omar Khayyam, Ibsen, Verhaeren e Rabindranath Tagore.

No ano seguinte, a família da mãe muda-se para Porto Alegre, a fim de que seu irmão, Ênio, faça o ginásio no Colégio Cruzeiro do Sul. Infelizmente a mudança não dá certo. O autor, que havia conseguido um lugar na matriz do Banco do Comércio, tem problemas de saúde e perde o emprego. Após tratar-se, emprega-se numa seguradora mas, por problemas de relacionamento com seus superiores, passa por maus momentos. Morando num pequeno quarto de uma casa de cômodos e diante de tantos insucessos, a família resolve voltar a Cruz Alta.

Erico volta a trabalhar no Banco do Comércio, como chefe da Carteira de Descontos, em 1925. Toma gosto pela música lírica, que passa a ouvir na casa de seus tios Catarino e Maria Augusta. Seus primos, Adriana e Rafael, filhos do casal, seriam os primeiros a ler seus escritos.

Logo percebe que a vida de bancário não o satisfaz. Mesmo sem muita certeza de sucesso, aceita a proposta de Lotário Muller, amigo de seu pai, de tornar-se sócio da Pharmacia Central, naquela cidade, em 1926.

Em 1927, além dos afazeres de dono de botica, dá aulas particulares de literatura e inglês. Lê Oscar Wilde e Bernard Shaw. Começa a sedimentar seus conhecimentos da literatura mundial lendo, também, Anatole France, Katherine Mansfield, Margareth Kennedy, Francis James, Norman Douglas e muitos outros mais. Começa a namorar sua vizinha, Mafalda Halfen Volpe, de 15 anos.

O mensário “Cruz Alta em Revista” publica, em 1929, “Chico: um conto de Natal” que, por insistência do jornalista Prado Júnior, Erico havia consentido. O colega de boticário e escritor Manoelito de Ornellas envia ao editor da “Revista do Globo”, em Porto Alegre, os contos “Ladrão de gado” e “A tragédia dum homem gordo”, onde, aprovadas, foram publicadas.

Erico remete a De Souza Júnior, diretor do suplemento literário “Correio do Povo”, o conto “A lâmpada mágica”. Esse, segundo testemunhas, o publica sem ler, o que dá ao autor notoriedade no meio literário local.

Com a falência da farmácia, em 1930, o autor muda-se para Porto Alegre disposto a viver de seus escritos. Passa a conviver com escritores já renomados, como Mario Quintana, Augusto Meyer, Guilhermino César e outros. No final do ano é contratado para ocupar o cargo de secretário de redação da “Revista do Globo”, cargo que ocupa no início do ano seguinte.

Em 1931 casa-se, em Cruz Alta, com Mafalda Halfen Volpe. Lança sua primeira tradução, “O sineiro”, de Edgar Wallace, pela Seção Editora da Livraria do Globo. No mesmo ano traduz desse escritor “O círculo vermelho” e “A porta das sete chaves”. Colabora na página dominical dos jornais “Diário de Notícias” e “Correio do Povo”.

Em 1932, é promovido a Diretor da “Revista do Globo”, ocasião em que é convidado por Henrique Bertaso, gerente do departamento editorial da “Livraria do Globo”, a atuar naquela seção, indicando livros para tradução e publicação. Sua obra de estréia, “Fantoches”, uma coletânea de histórias em sua maior parte na forma de peças de teatro. Foram vendidos 400 exemplares dos 1.500 publicados. A sobra, um incêndio queimou.

Traduz, em 1933, “Contraponto”, de Aldous Huxley, que só seria editado em 1935. Seu primeiro romance, “Clarissa”, é lançado com tiragem de 7.000 exemplares.

Seu romance “Música ao longe” o faz ser agraciado com o Prêmio Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional, em 1934. No ano seguinte, nasce sua filha Clarissa. Outro romance, “Caminhos cruzados”, recebe o Prêmio Fundação Graça Aranha. O autor admite a associação desse romance a “Contraponto”, de Aldo Huxley, o que faz com que seja mal recebido pela direita e atice a curiosidade e a vigilância do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul, que chegou a chamá-lo a depor, sob a acusação de comunismo. São publicados, ainda nesse ano, “Música ao longe” e “A vida de Joana d’Arc”. Realiza sua primeira viagem ao Rio de Janeiro (RJ), onde faz contato com Jorge Amado, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego e outros mais. Seu pai falece.

Em 1936, publica seu primeiro livro infantil, “As aventuras do avião vermelho”. Lança, também, “Um lugar ao sol”. Cria o programa de auditório para crianças, “Clube dos três porquinhos”, na Rádio Farroupilha, a pedido de Arnaldo Balvé. Dessa idéia surge a “Coleção Nanquinote”, com os livros “Os três porquinhos pobres”, “Rosa Maria no castelo encantado” e “Meu ABC”. Lança a revista “A novela”, que oferecia textos canônicos ao lado de outros, de puro entretenimento. Nasce seu filho Luis Fernando. É eleito presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa.

O DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, exige que o autor submeta previamente àquele órgão as histórias apresentadas no programa de rádio por ele criado, em 1937. Resistindo à censura prévia, encerra o programa. Outra reação ao nacionalismo ufanista da ditadura Vargas se faz sentir na versão para didática da história do Brasil em “As aventuras de Tibicuera”.

Um de seus maiores sucessos, “Olhai os lírios do campo”, é lançado em 1938. Publica, nesse mesmo ano, “O urso com música na barriga”, da “Coleção Nanquinote”.

Erico passa a dedicar a maior parte de seu tempo ao departamento editorial da Globo, em 1939. Em companhia de seus companheiros Henrique Bertaso e Maurício Rosenblatt, é responsável pelo sucesso estrondoso de coleções como a Nobel” e da “Biblioteca dos Séculos”, nas quais eram encontrados traduções de textos de Virginia Wolf, Thomas Mann, Balzac e Proust. Mesmo assim, com todo esse trabalho, arranja tempo para lançar, ainda da série infantil, “A vida do elefante Basílio” e “Outra vez os três porquinhos”, e o livro de ficção científica “Viagem à aurora do mundo”.

Em 1940, lança “Saga”. Pronuncia conferências em São Paulo (SP). Traduz “Ratos e homens”, de John Steinbeck; “Adeus Mr. Chips” e “Não estamos sós”, de James Hilton; “Felicidade” e “O meu primeiro baile”, de Katherine Mansfield. Faz sua primeira noite de autógrafos na Livraria Saraiva.

Passa três meses nos Estados Unidos, a convite do Departamento de Estado americano, em 1941, proferindo conferências. As impressões dessa temporada estão em seu livro “Gato preto em campo de neve”. Ele e seu irmão Enio são testemunhas de um suicídio: uma mulher se atira do alto de um edifício quando conversavam na praça da Alfândega, em Porto Alegre. Esse acontecimento é aproveitado em seu livro “O resto é silêncio”.

A censura no estado novo continuava atenta. A Globo cria a Editora Meridiano, uma subsidiária secreta para lançar obras que pudessem desagradar ao governo. Essa editora publica “As mãos de meu filho”, reunião de contos e outros textos, em 1942.

No ano seguinte, publica “O resto é silêncio”, livro que merece críticas pesadas do clero local. Temendo que a ditadura Vargas viesse a causar-lhe danos e á sua família, aceita o convite para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia feito pelo Departamento de Estado americano. Muda-se para Berkley com toda a família.

O Mills College, de Oakland, Califórnia, onde dava aulas de Literatura e História do Brasil, confere-lhe o título de doutor Honoris Causa, em 1944. É publicado o compêndio “Brazilian Literature: An Outline”, baseado em palestras e cursos ministrados durante sua estada na Califórnia. Esse livro foi publicado no Brasil, em 1955, com o título “Breve história da literatura brasileira”.

Passa o ano de 1945 fazendo conferências em diversos estados americanos. Retorna ao Brasil.

Em 1946, publica “A volta do gato preto”, sobre sua vida nos Estados Unidos.

Inicia, em 1947, a escrever “O tempo e o vento”. Previsto para ter um só volume, com aproximadamente 800 páginas, e ser escrito em três anos, acabou ultrapassando as 2.200 páginas, sob a forma de trilogia, consumindo quinze anos de trabalho.  Traduz “Mas não se mata cavalo”, de Horace McCoy. Faz a primeira adaptação para o cinema de uma obra de sua autoria: “Mirad los lírios Del campo”, produção argentina  dirigida por Ernesto Arancibia que tinha em seu elenco Mauricio Jouvet e Jose Olarra.

No ano seguinte, dedica-se a ordenar as anotações que vinha guardando há tempos e dar forma ao romance “O continente”. Traduz “Maquiavel e a dama”, de Somerset Maugham.

”O continente”, primeiro volume de “O tempo e o vento”, é finalmente publicado, em 1949, recebendo muitos elogios da crítica. Recebe o escritor franco-argelino Albert Camus, autor de “A peste”, em sua passagem por Porto Alegre.

No ano de 1951, é lançado o segundo livro da trilogia “O tempo e o vento”: “O retrato”. O trabalho não tão bem recebido pela crítica como o primeiro livro.

Assume, em 1953, a convite do governo brasileiro, em Washington, E.U.A., a direção do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, na Secretaria da Organização dos Estados Americanos, substituindo a Alceu Amoroso Lima.

No ano seguinte, é agraciado com o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Lança “Noite”, novela que é traduzida na Noruega, França, Estados Unidos e Inglaterra. Visita, face às funções assumidas junto à OEA, diversos países da América Latina, proferindo palestras e conferências.

De volta ao Brasil, em 1956, lança “Gente e bichos”, coleção de livros para crianças. Sua filha casa-se com David Jaffe e vai morar nos Estados Unidos. Dessa união nasceriam seus netos Michael, Paul e Eddie.

Em 1957, publica “México”, onde conta as impressões da viagem que fizera àquele país.

”O arquipélago”, terceiro livro da trilogia “O tempo e o vento”, começa a ser escrito em 1958. Tem um mal-estar ao discursar na abertura de um congresso em Porto Alegre. Consegue se refazer e disfarçar o ocorrido.

Acompanhado de sua mulher e do filho Luis Fernando, faz sua primeira viagem à Europa, em 1959. Expõe sua defesa à democracia em palestras proferidas em Portugal e entra em choque com a ditadura salazarista. Lança “O ataque”, que reunia três contos: “Sonata”, “Esquilos de outono” e “A ponte”, além de um capítulo inédito de “O arquipélago”. Passa uma temporada na casa de sua filha, em Washington.

Dedica-se, em 1960, a escrever “O arquipélago”.

Em 1961, sofre o primeiro infarto do miocárdio. Após dois meses de repouso absoluto, volta aos Estados Unidos com sua mulher. Saem os primeiros tomos de “O arquipélago”.

O terceiro tomo de “O Arquipélago” é publicado em 1962, concluindo o projeto de “O tempo e o vento”. O volume é considerado uma obra-prima. Visita a França, Itália e a Grécia.

A mãe do biografado falece em 1963.

Em 1964, seu filho Luis Fernando casa-se com Lúcia Helena Massa, no Rio de Janeiro, cidade para a qual ele se mudara em 1962. Dessa união nasceriam Fernanda, Mariana e Pedro. Insurge-se contra o golpe militar e dirige manifesto a seus leitores em defesa das instituições democráticas. Recebe o título de “Cidadão de Porto Alegre”, conferido pela Câmara de Vereadores daquela cidade.

Ganha o Prêmio Jabuti – Categoria “Romance”, da Câmara Brasileira de Livros, em 1965, com o livro “O senhor embaixador”. Volta aos Estados Unidos.

A convite do governo de Israel, visita aquele país em 1966. Vai aos Estados Unidos, mais uma vez, visitar seus familiares. Escreve “O prisioneiro”, que seria lançado em 1967. A Editora José Aguilar, do Rio de Janeiro, publica, em cinco volumes, o conjunto de sua ficção completa. Desse conjunto faz parte uma pequena autobiografia do autor, sob o título “O escritor diante do espelho”.

”O tempo e o vento”, sob a direção de Dionísio Azevedo, com adaptação de Teixeira Filho, estréia na TV Excelsior, em 1967. No elenco, Carlos Zara, Geórgia Gomide e Walter Avancini.

É agraciado com o prêmio “Intelectual do ano” (Troféu Juca Pato”), em 1968, em concurso promovido pela “Folha de São Paulo” e pela “União Brasileira de Escritores”.

No ano seguinte, a casa onde Erico nascera, em Cruz Alta, é transformada em Museu Casa de Erico Verissimo. Lança “Israel em abril”.

Em 1971, é editado o livro “Incidente em Antares”.

Em 1972, comemorando os 40 anos de lançamento de seu primeiro livro, relança “Fantoches”, onde o autor acrescentou notas e desenhos de sua autoria.

Amplia sua autobiografia, publicada em 1966, fazendo surgir suas memórias — sob o título de “Solo de clarineta” — cujo primeiro volume é publicado em 1973.

O escritor falece subitamente no dia 28 de novembro de 1975, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A hora do sétimo anjo”.

Carlos Drummond de Andrade faz homenagem ao amigo fazendo publicar o seguinte poema:

A falta de Erico Verissimo 


Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.
Postumamente, é lançado, em 1976, “Solo de clarineta – Memória 2”, organizada por Flávio Loureiro Chaves.

”Olhai os lírios do campo”, com adaptação de Geraldo Vietri e Wilson Aguiar Filho, é a novela apresentada pela TV Globo, em 1980, sob a direção de Herval Rossano. No elenco, Cláudio Marzo e Nívea Maria.

A esposa do autor, Mafalda, e a professora Maria da Glória Bordini, da PUC-RS, iniciam a organização dos documentos por ele deixados, em 1982.

É instalado, no programa de Pós-Graduação em Letras da PUC-RS — como projeto de pesquisa do CNpQ, o Acervo Literário de Erico Verissimo, em 1984. A coordenação fica a cargo da professora Maria da Glória Bordini.

No ano seguinte, a Rede Globo leva ao ar a série “O tempo e o vento”, adaptação de Doc Comparato e Regina Braga, direção de Paulo José, com Glória Pires, Armando Bogus, Tarcísio Meira e Lima Duarte, entre outros.

Em 1986, o Museu de Cruz Alta torna-se Fundação Erico Verissimo.

O índice de toda a obra de Erico é informatizado através do Projeto Integrado CNpQ – Fontes da Literatura Brasileira, que o disponibiliza para consulta, em 1991.

Em 1994, seu filho Luis Fernando assume a presidência da Associação Cultural Acervo Literário de Erico Verissimo, entidade encarregada de cuidar de toda a documentação literária do escritor. “Incidente em Antares”, adaptado por Charles Peixoto e Nelson Nadotti, com direção de Paulo José e constando de seu elenco Fernanda Montenegro,e Paulo Betti, é apresentada pela Rede Globo.

A UFRS homenageia o autor, pela passagem dos 90 anos de seu nascimento, com uma mostra documental no salão de sua Reitoria. A PUC-RS realiza seminário internacional, coordenado por seu Programa de Pós-Graduação em Letras, em 1995.

Organizada por Maria da Glória Bordini, publica-se, em 1997, “A liberdade de escrever”, coletânea de entrevistas do autor sobre política e literatura.

Em 2002, a Globo inicia a edição definitiva da obra completa do autor. É inaugurado o Centro Cultural Erico Verissimo, destinado à preservação do Acervo Literário e da memória literária do Rio Grande do Sul.

Morre Mafalda Verissimo, viúva do escritor, em 2003.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

S-E-2: Preguiça e o vício da esmola

S-E-2: Preguiça e o vício da esmola: Cumprindo a promessa feita à @opcao_zili de escrever um texto sobre “o povo”:   Sempre tem alguém vendendo terreno na Lua e alguém quere...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CONGÉSTA: MANUAL PARA 2012

CONGÉSTA: MANUAL PARA 2012: Recebi este texto por email,quarenta dicas.Meu Amigo Luiz Purtugueis me mandou.Achei muito legal e resolvi dividi-las com vocês.Desejo d...

A MENTIRA INSTITUCIONALIZADA

                                       Por Anatoli Oliynik                 Publicado em 9 de dez 2011
A mentira sempre acompanhou o ser humano, desde os seus primórdios. Entretanto, num determinado período da história humana ela institucionaliza-se e passa a ser utilizada como recurso de manipulação, controle e poder.
O ato de mentir, ou a mentira propriamente dita pode ser classificada em quatro tipos distintos, quais sejam:
1. A Mentira Social: é a mentira moralmente aceitável. É a mentira piedosa ou aquela sem conseqüência de qualquer natureza. Exemplo: O sujeito que mente para se livrar de um vendedor ou da moça do telemarketing.
2. A Mentira com objetivo concreto: é aquela em que o sujeito mente para alcançar um determinado objetivo que pode ser legítimo ou ilegítimo:
a) Legítimo: quando o sujeito mente para o ladrão onde está escondido o dinheiro ou quando o soldado mente para o inimigo onde está escondida a munição.
b) Ilegítimo: é aquela em que o sujeito mente premeditadamente para alcançar um objetivo escuso. Esse tipo de mentira é perigoso.
3. A Mentira Patológica ou mitomania: é aquela em que o sujeito mente sistematicamente; ele é incapaz de não mentir. Todavia, ele não mente para si mesmo. Exemplo: Karl Marx e suas teses consubstanciadas em dados estatísticos falsificados premeditadamente por ele mesmo.
4. A Mentira Existencial: é a mais grave de todas. É aquela em que o sujeito mente, inclusive, para si mesmo. Exemplo: Dr. Jekyll e Mr. Hyde do romance “O Médico e o Monstro” (1886) de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Luigi Pirandello (1867-1936) é o escritor que melhor expressa esse tipo de mentira. Exemplo: “O Falecido Mattia Pascal” (1904) e “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1921). “O Pato Selvagem” (1884) de Henrik Ibsen, também expressa este tipo de mentira.
Estes quatro tipos distintos de mentira acompanham o homem, em maior ou menor grau, em toda a sua existência.
Entretanto, gostaria de falar sobre a modalidade da mentira institucionalizada, aquela voltada para manobrar as grandes massas humanas, dominá-las, controlá-las e também corrompê-las.
Essa modalidade tem a sua gênese e toma a sua forma potencializada a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Vejamos alguns relatos:
“A guerra atacou os padrões morais tão rudemente quanto as formas estéticas. O fato de que a matança em massa por qualquer método imaginável se tivesse convertido em rotina, em dever, em propósito moral, foi apenas o mais cruel dos ataques a uma ordem moral que se dizia enraizada numa ética cristã.” (EKSTEINS, 286)
Mais adiante:
“A guerra impôs aos soldados uma ‘viagem interior’, mas os civis empreenderam uma viagem paralela no país natal. A censura e a propaganda desempenharam papel principal neste processo, dissimulando, como era seu propósito, a realidade da guerra. O front interno nunca soube com precisão como a guerra se desenrolava. As derrotas eram apresentadas como vitórias, o impasse como manobra tática. A verdade tornava-se mentira, e a mentira verdade. Como o eufemismo se tornou a ordem do dia oficial, a linguagem foi virada de cabeça para baixo e de dentro para fora. Inventaram-se histórias de atrocidades, e calava-se sobre atrocidades reais.” (EKSTEINS, 298) (grifos meus).
“As fronteiras entre a verdade e a mentira tornaram-se tão indefiníveis que se tomavam os desmentidos oficiais de boatos por tentativas de desorientar o inimigo.” (EKSTEINS, 300)
Nesse paradoxo, enquanto as esferas social e cultural pareciam se afastar uma da outra, a essência da experiência moderna permaneceria.
“O mundo tornou-se uma invenção da imaginação, ao invés de ser a imaginação uma invenção do mundo.” (EKSTEINS, 302)
Nesse lodaçal a imprensa liderava o esforço de propaganda, mas clérigos, educadores, músicos e autores o reforçavam. Todos os beligerantes se envolveram na criação de mitos e na distorção da realidade. A realidade, o senso de proporção e a razão – eis as principais baixas da guerra.
E assim os novos governantes, a nova imprensa e as mentes psicóticas satanizadas encontram o caminho pavimentado para exercer a manipulação, o controle e o poder sobre as massas, transformando o Estado em pai, protetor e a mãe gentil de todos. Que receita! Que descoberta! Nada tão apropriado para justificar o gigantismo do Estado!
O grande Leviatã se ergue de suas trevas e lança suas garras sobre nós transformando-nos em amebas, incapazes de enxergar o mundo e a realidade e até de governar nossas vidas. Totalmente dependentes do grande pai, na verdade o Grande Irmão, que tudo vê, tudo sabe e tudo controla, encarceramo-nos numa prisão sem grades na busca da proteção patrimonialista utópica.
O resultado de tudo isso é este mundo irreal, fantasioso, utópico, imbecilizado pela cultura do cotidiano  do direito sem obrigações, na qual a massa se encontra.
Até quando a grande massa chafurdará nessa mentira levada a efeito pelo Estado moderno que se potencializou a partir da Primeira Guerra Mundial?

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CORRUPÇÃO DE SARNEY A LULA

CORRUPÇÃO DE SARNEY A LULA
Eduardo Graeff
Brasília, agosto de 2011
SUMÁRIO
Introdução....................................................................................... 1
I - O escândalo das passagens aéreas..............................................2
II - A corrupção na tela da mídia....................................................7
III - Estabilidade, responsabilidade e transparência.....................11
IV - “Denuncismo” e combate à corrupção...................................15
V - A corrupção na névoa da luta política.....................................18
VI – Original, mas sem inocência................................................. 24
VII - Transparência como um valor democrático.........................29
Introdução
O título deste livrinho poderia ser Combate à Corrupção e Denuncismo - A
Revanche. Ele é uma versão atualizada e expandida de um que eu escrevi em 2002,
intitulado Livro Branco: Combate à Corrupção e Denuncismo na Era FHC.1
Para quem não tem interesse especial pelo tema da corrupção, parece estranho
escrever dois livros (curtos, vá lá) sobre ele. Explico-me: o primeiro eu escrevi porque
não aguentava mais assistir passivamente a oposição, PT à frente, bater o carimbo da
corrupção no governo do qual eu fazia parte, sabendo o quanto isso era imerecido.
Haveria pessoas mais qualificadas para botar os pingos nos iis sobre as denúncias da
oposição e as ações do governo. Mas, como ninguém se apresentava, eu pensei: “Vai
tu mesmo”.
O segundo acabou saindo por uma espécie de efeito retardado do primeiro.
Recentemente, fui surpreendido por um convite para ir à Índia falar da experiência
do Brasil sobre corrupção. O assunto lá também é sério e ultimamente anda fervendo
no Parlamento, na mídia e na rua. (Sim, na rua. A oposição indiana pode ser pacífica,
geralmente, mas não passiva.) Um amigo que está passando uma temporada em
Nova Delhi leu meu Livro Branco e pensou que eu poderia dar alguma contribuição
ao debate por lá.
Não sei se levei alguma novidade para os meus interlocutores indianos. Eu com
certeza achei muito estimulante a discussão com eles. E aproveitei mais do que
esperava a oportunidade de voltar este assunto quase dez anos depois.
O texto a seguir baseia-se no paper que escrevi para a Índia, o qual por sua vez
aproveitou a pesquisa para o Livro Branco. Para colocar o governo FHC em
perspectiva, ampliei a pesquisa para incluir o antes – começando por José Sarney – e
o depois – chegando até o fim do governo Lula.
Achei que não cabia levar para fora a polêmica política sobre corrupção no Brasil. No
paper, declarei o meu lado na política brasileira, mas tentei me limitar aos fatos.
Aqui, resolvi manter o mesmo tom, mais de relato do que denúncia. Os fatos sem
adjetivação falam alto o bastante. Mas posso adiantar minha opinião: olhando para
trás, o governo FHC parece um ponto fora da curva nesta matéria (como em outras,
aliás). Ele trabalhou, claramente, contra a corrupção, a favor da transparência. Os
que vieram antes e depois, nem tanto.
1
A tendência geral destes vinte anos é preocupante. Como diriam meus conterrâneos
gaúchos: “A coisa é feia, e vem se debruçando”. Acredite quem quiser que o PT no
poder limitou-se a fazer o que todos fazem. De Sarney a Lula, passando por Fernando
Collor, a corrupção política não apenas aumentou. Na verdade, deu um pulo –
mudou de patamar.

Iluda-se quem quiser, também, supondo que esse é um problema menor –
preocupação “udenista”, como gostam de dizer os ideólogos do “rouba mas faz pelos
pobres”. Na escala a que chegou com Lula, a corrupção é um caruncho que rói nossa
democracia pelas duas pernas, a do estado de direito e a de eleições limpas.
Eu me daria por satisfeito se este livrinho fizer justiça ao governo FHC e expuser a
hipocrisia dos que usaram a arma do denuncismo contra ele. Além disso, espero que
ajude a entender como e por que a corrupção chegou ao ponto que chegou no Brasil e
dê alento a quem não desiste de combatê-la.
I - O escândalo das passagens aéreas
Começo por um episódio menor, quase anedótico, mas que abre uma janela
reveladora sobre o panorama da corrupção no Brasil de hoje.
Um escândalo sobre mau uso de passagens aéreas manteve a Câmara dos Deputados
semiparalisada no primeiro semestre de 2009.2 Os deputados federais têm direito a
passagens pagas pela Câmara nas viagens entre Brasília e seus estados de origem. Há
anos isso se transformou numa verba mensal com a qual os deputados podem pagar
passagens para si mesmos e para outras pessoas, para qualquer destino no Brasil ou
no exterior. No começo de 2009, veio a público que viagens particulares dos próprios
deputados, seus familiares, amigos e eleitores eram pagas com essa verba.
Numa investigação interna sobre possíveis abusos, apareceu uma passagem
internacional paga pela Câmara mas emitida em nome de um ministro do Supremo
Tribunal Federal. O magistrado provou que havia comprado a passagem com seu
próprio dinheiro de uma agência de viagem. Seguindo essa pista, descobriu-se que
funcionários dos gabinetes de deputados vendiam sobras da cota mensal de
passagens a agências, que as revendiam e cobravam duas vezes, do cliente particular
e da Câmara.3 Alguns deputados teriam conhecimento desse esquema e
eventualmente se beneficiariam dele.
2
Os meios de comunicação e o público condenaram em bloco a vantagem garantida a
todos os deputados, o abuso de muitos e a corrupção de uns poucos funcionários e
deputados. Reprovação generalizada, mas com uma dose de ambiguidade. Uma
pesquisa nacional fez duas perguntas sobre o caso. “Você aprova o fornecimento de
passagens pagas com dinheiro público para familiares e amigos de deputados?” A
grande maioria respondeu que não aprovava. “Se fosse deputado, você daria
passagens pagas com dinheiro público a seus familiares e amigos?” Uma maioria
apertada respondeu que daria.4
A reação da Câmara também foi ambígua. O fornecimento indiscriminado de
passagens foi considerado legal, embora impróprio. Anunciou-se a adoção de regras
mais restritivas. Como muitos deputados de quase todos os partidos fizeram uso
questionável da sua cota de passagens, a aplicação de punições por esse motivo
estava fora de cogitação. Meses depois de descoberto o esquema de corrupção, abriuse
um procedimento administrativo que pode levar à demissão de funcionários
envolvidos. Nenhum deputado foi punido por isso.5
O escândalo das passagens aéreas é uma nota modesta na crônica recente da
corrupção no Brasil. O mau uso das passagens pode ter somado alguns milhões de
reais; o roubo propriamente dito, bem menos que isso. Dois casos atuais – o processo
em curso no Supremo Tribunal Federal sobre o “mensalão”, em que são réus exministros,
parlamentares e dirigentes do principal partido governante; e uma
investigação sobre superfaturamento de obras para a companhia petrolífera estatal
Petrobras – envolvem centenas de milhões cada um. Há outros casos desta
magnitude.
O escândalo das passagens não é dos maiores mas é emblemático, porque expõe
elementos que nem sempre aparecem juntos tão claramente em outros casos de
corrupção.
A corrupção viceja na sombra do patrimonialismo enraizado na cultura e nas
instituições políticas brasileiras. Chamam-se patrimonialistas as formas tradicionais
de poder que desconhecem fronteira entre o público e o privado, entre o patrimônio
do estado e o patrimônio do chefe do estado e seus prepostos. Um estudo clássico de
história política do Brasil, Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, traça a evolução
do patrimonialismo brasileiro e de sua contrapartida econômica, o capitalismo
politicamente orientado, desde a formação da monarquia portuguesa no século XI, na
esteira da expulsão dos mouros da Península Ibérica, até meados do século XX.6 No
escândalo das passagens, esse legado é perceptível na facilidade com que um recurso
público necessário para o exercício da função pública tornou-se uma vantagem
pessoal e transferível, como um título de propriedade privada.
A desigualdade extrema mina a obediência à lei, tanto no topo como na base da
sociedade brasileira. A economia brasileira baseou-se no trabalho escravo desde o
começo da colonização portuguesa no século XVI. O Brasil foi um dos últimos países
a abolir legalmente a escravidão, pressionado pela Inglaterra, no fim do século XIX.
O legado escravocrata marcou as relações da elite com o povo até meados do século
XX e ainda marca em alguma medida as relações de ambos, povo e elite, com a
ordem legal. Membros da elite tendem a se sentir acima da lei. Grande parte do povo
sente-se de algum modo abaixo da lei, começando pela precariedade jurídica de suas
condições de trabalho e moradia.
Na tradição brasileira, a troca de favores pessoais, tanto entre desiguais quanto entre
pares, supera frequentemente o valor da obediência à lei e às obrigações contratuais.
Outro livro clássico, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é a referência
obrigatória a esse respeito.7
A lentidão do judiciário garante impunidade aos transgressores e desacredita o
devido processo legal como instrumento de aplicação da justiça.
O envolvimento de mandatários eleitos amplifica a repercussão dos escândalos e
aumenta o déficit de confiança do público nas instituições representativas.
Tudo isso alimenta uma cultura das transgressões que em última análise deslegitima
a aplicação rigorosa da lei pelo estado, enquanto os discursos oficiais pregam
transparência, controle e punição dos desvios dos agentes públicos. A coexistência
desses dois códigos atravessa de alto a baixo a sociedade brasileira e permeia de
ambiguidade as opiniões e atitudes das pessoas sobre corrupção.8
A recorrência da corrupção impune inspira nos brasileiros uma mistura de desgosto e
conformismo, como se o Brasil estivesse condenado a assistir ao eterno retorno das
mazelas da sua política e da própria sociedade. Essa visão negativa não impede que
as pessoas se declarem satisfeitas com a situação econômica presente e otimistas
sobre o futuro do país. A regularidade do processo democrático desde 1988, a
estabilização da economia desde 1994 e a aceleração do crescimento desde 2004
mantiveram a satisfação e o otimismo em alta nos governos de Fernando Henrique
Cardoso e Lula. A democratização do país e sua crescente integração à economia
global põem em cheque o legado patrimonialista elitista. Isso não acontece, porém,
de uma maneira linear nem imune a retrocessos. Desse modo o desgosto e o
4
conformismo persistem. “Locupletemo-nos todos ou restaure-se a moralidade”,
zombava o Barão de Itararé dos usos e costumes da política brasileira do século
passado. Ainda hoje, a impossibilidade de se restaurar ou instaurar de uma vez por
todas a moralidade serve de álibi para os corruptos, arrefece a indignação dos
honestos e talvez faça muitos pensar que, dada a oportunidade, locupletar-se não
seria de todo uma má ideia.
O funcionamento de uma economia de mercado moderna, relativamente aberta e
complexa como já é a brasileira cria exigências de respeito à lei e aos contratos com
as quais até autocracias essencialmente corruptas têm que conciliar. Supõe-se que
altos níveis de transparência e controle do setor público fazem bem para os negócios,
promovem a competição e estimulam investimentos nacionais e estrangeiros. Não
duvido disso, apesar da capacidade comprovada das empresas multinacionais e locais
de jogarem conforme as regras, legais ou não, ditadas pelos países onde operam.
A democratização teve até hoje efeitos contraditórios nesta matéria. Por um lado, os
meios de comunicação podem repercutir denúncias que por vinte anos, de 1964 a
1984, foram abafadas pela censura dos governos militares. Desde 1988, quando uma
Constituição democrática entrou em vigor no Brasil, vários mecanismos
institucionais foram introduzidos para aumentar, em tese, as possibilidades de
controle do estado pela sociedade.
Por outro lado, a volta dos políticos profissionais ao centro do poder desencadeou
uma corrida por posições e recursos com possível uso eleitoral, revigorando velhas
práticas de loteamento político da máquina estatal. O reforço das garantias de
estabilidade dos servidores públicos de carreira, que deveria protegê-los dessas
práticas, também serve de escudo para o corporativismo, que é uma versão
“moderna” do patrimonialismo. Loteamento político e corporativismo, cada um por
si e muitas vezes combinados, capturam pedaços do estado para interesses
particularistas, abrigam a corrupção e dificultam a responsabilização efetiva dos
agentes públicos e privados nela envolvidos.
Seja porque o problema ficou mais visível, seja porque se agravou realmente, o fato é
que ele cresceu na percepção das pessoas. Uma pesquisa recente encomendada pela
BBC constatou que, de 26 países, o Brasil é aquele onde os entrevistados se
declararam mais preocupados com a corrupção: 96% consideraram-na um problema
“muito sério”.9 Isso não implica que os brasileiros sejam menos tolerantes que outros
em relação ao problema, mas indica que não estão de todo conformados.
5
O índice da Transparência Internacional, apurado desde 2001, mostra uma piora das
percepções de corrupção no país de 2002 a 2006 e uma melhora gradual daí por
diante, mas ainda sem voltar ao nível de oito anos antes.10 A nota do Brasil é baixa,
em todo caso: em 2010, menos de 4 numa escala de 0 (altamente corrupto) a 10
(altamente transparente). Isso nos coloca em 69º lugar entre 178 países no ranking
da Transparência.11
Índice de percepções da corrupção, 2010 (países escolhidos)
Rank Nota
Dinamarca 1 9,3
Chile 21 7,2
Uruguai 24 6,9
Coréia do Sul 39 5,4
Costa Rica 41 5,3
África do Sul 54 4,5
Brasil 69 3,7
Colômbia 78 3,5
China 78 3,5
India 87 3,3
México 98 3,1
Argentina 105 2,9
Bolívia 110 2,8
Rússia 154 2,1
Venezuela 164 2,0
Somalia 178 1,1
Fonte: Transparência Internacional
Esses números, por aproximativos que sejam, permitem duas observações. Primeiro,
faz mais sentido para o Brasil olhar os países emergentes melhor colocados no
ranking do que se confortar olhando para baixo. Se não seremos tão cedo uma
Dinamarca em matéria de transparência, o que nos impede de chegar perto da África
do Sul, Costa Rica ou Chile, por exemplo? Segundo, fechando o foco na América
Latina, parece que alguma correlação positiva existe entre transparência e
democracia. A situação política contrastante dos países latino-americanos situados
nos extremos superior e inferior do ranking reforça essa impressão.
Mesmo que não se possa provar uma correlação de fato, muitos brasileiros vêem
democracia e transparência como valores ligados. Se e quanto elas vão andar no
mesmo passo no Brasil é uma questão em aberto. A resposta depende dos
6
desdobramentos da competição pelo poder nos marcos das instituições existentes e,
em última análise, do enraizamento de práticas e valores democráticos nas
instituições e na própria sociedade.
II - A corrupção na tela da mídia
Escândalos de corrupção tendem a lançar a mídia e as autoridades públicas numa
corrida desigual. É geralmente mais fácil publicar denúncias do que produzir provas
e punir culpados. No Brasil, o atraso das apurações em relação às denúncias tornouse
dramático.
Em 1984, o Brasil elegeu o primeiro presidente civil depois de vinte anos, na esteira
de uma ampla mobilização a favor de eleições diretas para presidente, que na
tradição política brasileira são quase sinônimo de democracia. O governo militar teve
força para barrar a aprovação de um emenda constitucional restabelecendo eleições
diretas. Mas não conseguiu evitar que o Congresso, pressionado pelas ruas, elegesse
um oposicionista moderado, Tancredo Neves, do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro – PMDB, em vez do candidato indicado pelo regime.
A euforia com a eleição de Tancredo virou consternação quando uma doença aguda o
levou ao hospital às vésperas da posse e à morte semanas depois. Em seu lugar
assumiu o vice-presidente eleito. Representante de uma dissidência do partido que
apoiava o governo militar, José Sarney honrou os compromissos da coalizão que o
elegeu e deu prosseguimento ao calendário de democratização. Um Congresso
Constituinte foi eleito em 1986 e uma nova Constituição foi promulgada em 1988,
garantindo amplas liberdades e abrindo caminho para a eleição direta de um novo
presidente em 1989.
Formado na velha escola da política clientelista, mas sem o mesmo apoio popular e
congressual de Tancredo, Sarney teve dificuldade para administrar as demandas dos
aliados por cargos e verbas do governo federal. Cumpriu seu papel na transição
democrática, mas terminou o governo bombardeado por denúncias de clientelismo e
corrupção.
Em janeiro de 1988, o ministro do Planejamento, Anibal Teixeira, demitiu-se,
acusado de acobertar a cobrança de comissões em sua pasta e manipular a
distribuição de verbas aos municípios para cevar as bases de sua candidatura a
deputado por Minas Gerais. Saiu atirando contra outras áreas do governo e o próprio
7
presidente.12 O Senado instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI para
investigar tanto as denúncias contra o ministro como as suspeitas levantadas por ele.
A “CPI da Corrupção” ouviu dezenas de testemunhas, incluindo Teixeira e Jorge
Murad, genro de Sarney, que tinha gabinete no Palácio do Planalto sem funções bem
definidas no governo.13 Acumulou milhares de páginas com indícios de
irregularidades no Planejamento e outros ministérios e empresas estatais.14 O
relatório final incriminou Teixeira, outros três ministros e o presidente. Foi enviado à
Câmara para instruir a abertura de um processo de impeachment de Sarney. Acabou
engavetado, porém, sem muita repercussão, por falta de provas contra os indiciados,
exceto Teixeira, que também foi alvo de uma investigação da Polícia Federal e
respondeu a processo no STF.15
A CPI teve conseqüências políticas, de todo modo: enfraqueceu o presidente diante
do Congresso e da opinião pública e, na mesma medida, fortaleceu Ulysses
Guimarães, presidente do PMDB e do Congresso Constituinte, na reta final da
promulgação da nova Constituição.
Mas o verdadeiro pano de fundo desgaste político de Sarney foi a escalada da
inflação. Depois do fracasso do congelamento decretado pelo Plano Cruzado em
1986, os preços disparam 394% em 1987, 993% em 1988 e 1.863% em 1989.16
Inflação e corrupção foram temas óbvios da eleição presidencial. Quem os explorou
com mais sucesso foi Fernando Collor de Mello. Então com 40 anos, governador de
Alagoas, um dos menores e mais pobres estados do Brasil, praticamente
desconhecido fora de lá, ele se lançou à presidência por um partido improvisado
especialmente para registrar sua candidatura. Acabou surpreendendo candidatos
muito mais conhecidos e apoiados por partidos muito mais fortes: Ulysses
Guimarães, do PMDB, Mário Covas, do PSDB, e Lula, do PT, que disputou e perdeu o
segundo turno da eleição.
Collor foi um fenômeno de mídia antes de ser um fenômeno eleitoral. Uma coisa
levou à outra. Uma extensa matéria da Rede Globo de televisão, líder nacional de
audiência, apresentou-o ao país como “caçador de marajás”, empenhado em cortar
privilégios de latifundiários e altos funcionários públicos em seu estado. Outras
aparições na Rede Globo e uma capa de Veja, a revista de maior circulação nacional,
projetaram sua imagem de político jovem, bem intencionado, corajoso, em oposição à
velha política personificada por Sarney.17 O contraponto foi reforçado pela presença
do senador Itamar Franco, vice-presidente da “CPI da Corrupção”, como candidato a
vice-presidente na chapa de Collor. Na verdade, grandes empresários, incluindo
8
donos dos meios de comunicação, apostaram no desconhecido como alternativa
eleitoral viável ao notório radicalismo socialista do PT de Lula.
Catapultado pela mídia, abatido pela mídia.
O primeiro ato de Collor, no próprio dia da posse, 15 de março de 1990, foi congelar
por 18 meses os depósitos bancários acima de 50.000 na moeda nacional da época
(cerca de US$1.200). A legitimidade da eleição direta, o apoio dos empresários e a
cobertura favorável da mídia permitiram ao novo presidente fazer passar medidas
duras pelo Congresso sem ter que dividir poder com os principais partidos. Naquele
momento o Congresso e o país engoliriam qualquer remédio que prometesse baixar a
febre da inflação.
O tratamento de choque aplicado por Collor teve efeito limitado. A inflação caiu para
1.585% em 1990 e 475% em 1991, ao custo de uma forte recessão. Mas voltou a subir
em 1992, para 1.149%. Quando chegou a 2.489% em 1993, o país tinha outro
presidente.
Inflação descontrolada e estagnação são uma receita para desestabilizar qualquer
governo. O que selou o destino de Fernando Collor, no entanto, foi outra matéria de
capa de Veja, em maio de 1992, desta vez com uma denúncia explosiva feita por
ninguém menos que seu irmão Pedro. Segundo ele, a campanha presidencial deixara
um saldo de milhões de dólares em contribuições não declaradas. Esse fundo ilegal,
depositado em contas no exterior, continuaria a ser engordado por Paulo César “PC”
Farias, gerente de campanha e amigo pessoal do presidente, com propinas recebidas
para abrir portas de ministérios e empresas estatais. Uma disputa entre os irmãos
Collor pelo controle de meios de comunicação em Alagoas levou Pedro a “contar
tudo” para um veículo que desse a máxima repercussão às suas revelações.18
A matéria de Veja lançou a imprensa e uma Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito em busca de provas do esquema de corrupção, numa corrida cujo prêmio
seria a cabeça do presidente. Provas apareceram, a indignação do público cresceu. O
golpe de graça veio quando jovens de “caras pintadas” com as cores da bandeira
brasileira ocuparam as ruas das principais cidades do país, com cobertura da Rede
Globo, pedindo a saída de Collor. Ele foi afastado pela Câmara dos Deputados em
outubro de 1992 e renunciou em dezembro, quando a votação final do seu
impeachment estava em curso no Senado.
Seu vice e sucessor legal assumiu a presidência com apoio amplo do Congresso e
simpatia da opinião pública. Político impulsivo mas experiente, Itamar Franco fez
9
desde o início o que Collor só resolvera fazer tarde demais: trouxe para dentro do
governo representantes dos principais partidos, exceto o PT, que recusou o convite
para indicar ministros. Com isso o presidente corria o risco de reeditar o esquema de
loteamento político que fizera Sarney de refém. Antes que novas denúncias
começassem a pipocar no Executivo, porém, o foco da mídia virou para o Congresso.
Em outubro de 1993, o assessor-chefe da comissão de orçamento do Congresso
confessou sua participação num esquema de desvio de verbas federais destinadas a
obras em estados e municípios. Uma CPI comprovou o envolvimento no esquema de
vários deputados, apelidados “anões do orçamento” pela coincidência de serem todos
de baixa estatura, em conluio com empreiteiras de obras públicas. Seis deputados
foram cassados por seus pares e outros quatro renunciaram. O presidente da Câmara
dos Deputados, Ibsen Pinheiro, também acabou cassado, com base numa prova
forjada por adversários políticos, como veio a se saber anos depois.19 Detalhe
macabro de uma história feia: no curso das investigações, o assessor-chefe da
comissão de orçamento foi preso e acabou condenado como mandante do assassinato
de sua esposa, para impedi-la de denunciar o esquema de corrupção que ele próprio
acabou expondo.
No rescaldo desses dois mega-escândalos, o sentimento predominante no país era
que as instituições democráticas haviam passado no teste da capacidade de curar
suas próprias mazelas. Ponto para a imprensa livre, em primeiro lugar, no seu papel
de vigia das autoridades públicas. Ponto também para o Congresso, que foi
empurrado pela mídia mas de todo modo conseguiu cumprir seu papel de fiscal do
Executivo e afinal cortou na própria carne para dar satisfação à opinião pública.
Restava o desafio da inflação. Caberia a Fernando Henrique Cardoso enfrentá-lo.
Nomeado ministro da Fazenda em maio de 1993, ele foi ajudado nessa missão quase
impossível por um grupo de jovens economistas talentosos, pela exaustão da
sociedade com a espiral inflacionária e, ironicamente, pelos “anões do orçamento”. Se
o Congresso não estivesse tão ocupado com seus próprios problemas, dificilmente
teria aprovado o corte de despesas e outras medidas controvertidas que prepararam o
terreno para o lançamento do Plano Real em julho de 1994.
10
III - Estabilidade, responsabilidade e transparência
Sarney cedeu às pressões políticas para expandir despesas, mas seu governo tomou
medidas que seriam fundamentais para controla-las no futuro. Em 1986, na esteira
do Plano Cruzado, foi criada a Secretaria do Tesouro Nacional para centralizar a
execução das despesas federais, até então espalhada por mais de 5 mil contas
bancárias. Em 1987, o pagamento e contabilização das despesas foi totalmente
unificado e automatizado por meio do Sistema Integrado de Administração
Financeira – SIAFI. Em 1988, extinguiu-se a chamada “conta movimento”, por meio
da qual o Banco do Brasil dispunha livremente das reservas do governo para lastrear
operações de crédito.20
A Constituição de 1988 assentou as bases de instituições adequadas à administração
transparente do setor público. Devolveu ao Congresso poderes sobre a elaboração do
orçamento. Obrigou as autoridades do Executivo a prestar informações detalhadas
sobre todos os seus atos aos parlamentares individualmente, às comissões do
Congresso e ao Tribunal de Contas da União , que atua como órgão auxiliar do
Congresso na auditoria das despesas públicas. Criou uma Procuradoria-Geral da
República PGR independente, com poderes para investigar e levar à justiça
qualquer autoridade pública. Deu poder aos cidadãos, individualmente e por meio de
associações, para requerer informações do governo e questionar seus atos na justiça.
Em 1993, no intervalo entre a queda de Collor e o escândalo dos “anões”, o Congresso
aprovou uma nova lei sobre licitações e compras públicas com exigências mais
estritas de transparência.21
Num ambiente marcado por superinflação e loteamento político generalizado da
máquina estatal, a eficácia desses instrumentos permaneceu limitada.
Inflação alta e crescente é um caldo de cultura para a corrupção. Taxas de inflação de
três ou quatro dígitos transformam orçamentos públicos em peças de adivinhação ou
ficção. Controle de contas sem previsão confiável de receitas e despesas é quase uma
impossibilidade prática.
O Brasil foi provavelmente o país que levou mais longe o uso da indexação como
forma de conviver com a inflação, desde que desistiu de controla-la na década de
1970. Como a maioria das receitas do setor público (isto é, os impostos) era indexada,
mas não as despesas, havia uma maneira fácil de fazer seu ajuste ex post. Bastava
adiar a realização de despesas e deixar a inflação reduzir seu valor real. Solução
11
desastrosa para a qualidade das despesas, mas politicamente mais cômoda para o
governo do que fazer o ajuste ex ante, no orçamento anual, tendo de discutir cortes
no valor nominal das despesas com o Congresso e demais interessados. Ministros ou
funcionários de segundo e terceiro escalão detinham o poder de punir ou premiar
fornecedores do governo pela decisão essencialmente discricionária de adiar ou não o
pagamento de despesas de custeio e investimento. A superinflação também tornava
imprecisa a apuração de preços médios praticados no mercado, dificultando a
detecção de superfaturamento nas compras do governo. Campo fértil para a
corrupção, como é fácil imaginar.
O Plano Real atacou a inflação em ambas as frentes, combinando uma fórmula
inovadora de desindexação de preços e salários com esforços mais convencionais de
contenção das despesas públicas. Seu êxito implicou uma diminuição impossível de
quantificar, mas certamente significativa, das oportunidades de desvio de dinheiro
público sob a névoa inflacionária.
O êxito do Plano Real deu a vitória a Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, no
primeiro turno da eleição presidencial de 1994, derrotando Lula, que desde o início
denunciara o plano como uma “fraude eleitoral” de fôlego curto. A expectativa que
FHC saberia defender o real das turbulências externas garantiu-lhe a reeleição em
1998, novamente no primeiro turno e derrotando Lula.
No primeiro mandato de FHC, os avanços no sentido da transparência estiveram
voltados principalmente para o controle das despesas e modernização da máquina
pública, essenciais para consolidar a estabilização da economia. Instrumentos
específicos de combate à corrupção foram reforçados ou criados principalmente no
segundo mandato.
A austeridade fiscal diminuiu a importância das chamadas “emendas parlamentares”
como moeda de troca entre o Executivo e o Congresso. A implementação de dois
instrumentos previstos na Constituição, o Plano Plurianual de Investimentos e a Lei
de Diretrizes Orçamentárias, estreitou adicionalmente a margem para a pulverização
de recursos orçamentários nas bases eleitorais dos deputados.
Duas medidas incorporaram os estados ao esforço de saneamento das contas
públicas. Em troca do refinanciamento de suas dívidas pelo governo federal, os
governos estaduais tiveram que assumir compromissos rigorosos de austeridade,
referendados pelos respectivos Legislativos, incluindo a proibição expressa de
tomada de novos empréstimos antes de reduzirem as dívidas acumuladas a um dado
12
percentual da sua receita. Vários estados também tiveram de concordar com a
privatização ou liquidação dos bancos que possuíam, por meio dos quais se
endividavam de maneira nada transparente nem sustentável. O estilo permissivo de
administração que prevalecia antes disso pode ser resumido pela frase atribuída a um
ex-governador de São Paulo: “Gasta que o dinheiro aparece”. Com a mesma
facilidade com que aparecia, grande parte da quase-moeda inflacionária emitida
pelos estados desaparecia pelos ralos da corrupção.
Em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu travas permanentes para a
expansão insustentável de despesas e dívidas dos governos estaduais e municipais.22
Diferentemente do ranking de percepções de corrupção da Transparência
Internacional, o ranking de transparência orçamentária da International Budget
Partnership coloca o Brasil num honroso 9º lugar, quase empatado com o Chile,
próximo dos Estados Unidos e à frente da maioria dos países da União Européia.23
A Constituição de 1988 consagrou o monopólio estatal pré-existente nos setores de
petróleo, gas e telecomunicações. Emendas constitucionais aprovadas em 1995
determinaram a quebra do regime de monopólio. A privatização de empresas estatais
ineficientes livrou o Tesouro Nacional do peso dos seus déficits recorrentes e dívidas
acumuladas, possibilitou a retomada ou aceleração de investimentos essenciais e,
como benefício lateral, tirou do balcão do loteamento político algumas centenas de
posições chave na direção dessas empresas. Investimentos privados e gestão
profissionalizada explicam a expansão espetacular dos serviços de telefonia. Em
1998, marco zero da privatização, o Brasil tinha 14 linhas telefônicas por 100
habitantes; hoje tem 128.24
Agências reguladoras independentes foram criadas para os setores privatizados
(telefonia, ferrovias) ou abertos à atuação de empresas privadas ao lado das estatais
(petróleo, energia elétrica). A nomeação dos diretores das agências foi submetida por
lei à aprovação do Senado, para mandatos fixos de até quatro anos, visando à lisura
de suas relações com o governo, as empresas concessionárias e os consumidores.
Os percalços de seus antecessores ensinaram a FHC esta lição: “Sem alianças o
Presidente não governa. Mas se ele ‘se entrega’ ao Congresso, tampouco conseguirá
governar no sentido de executar seu programa”.25 Ele cedeu ministérios e outras
posições chave aos partidos da sua coalizão, com peso proporcional à representação
de cada um no Congresso. Mas reduziu substancialmente o espaço para o loteamento
político nos escalões intermediários da máquina federal. Processos formais de seleção
13
foram adotados para o preenchimento de cargos regionais em áreas como meio
ambiente, reforma agrária e previdência. Posições sensíveis na área econômica, como
a Receita Federal e os bancos oficiais, foram consideradas fora dos limites para
indicações políticas.
A modernização da gestão nas áreas de educação e saúde incluiu a substituição de
transferências discricionárias de verbas federais para estados e municípios – outro
manancial de clientelismo e corrupção – por esquemas de repartição baseados em
critérios objetivos. Conselhos locais de acompanhamento e fiscalização começaram a
criar condições para um efetivo controle social do gasto público nessas áreas.
A previdência renovou seus sistemas de computador para prevenir fraudes e
violações. As fraudes eletrônicas foram tipificadas como crime e combatidas por uma
força tarefa de auditores do Instituto Nacional de Seguridade Social INSS,
promotores e policiais.
O governo FHC coincidiu com a chegada da internet ao Brasil. No fim do seu período,
uma quantidade importante de informação sobre os programas e ações do governo
estava disponível online, incluindo dados detalhados sobre o orçamento e sua
execução.26 Os ministérios e outros órgãos federais começavam a operar o
Comprasnet, um sistema de pregão eletrônico que traria ganhos substanciais de
transparência e economia nas compras do governo. Uma redução de mais de 20% nos
preços dos bens ofertados foi registrada na estréia do sistema.27
Em 1998 o Brasil adaptou sua legislação interna às disposições da Convenção de
Viena sobre combate à lavagem e dinheiro e criou um Conselho de Controle das
Atividades Financeiras – COAF para receber informação dos bancos e identificar
transações suspeitas.28 De acordo com o último relatório publicado, de 2009, o
monitoramento do COAF levou ao congelamento de R$1,2 bilhão de recursos
suspeitos, dos quais R$792 milhões no exterior. O relatório não especifica quanto
desse dinheiro pode ter origem em corrupção no setor público.29
A Advocacia-Geral da União – AGU, prevista pela Constituição de 1988 e criada em
1993, não tinha pessoal nem estrutura suficientes para cumprir seu papel de
representar em juízo o governo federal e todos os órgãos a ele vinculados. A falta de
defesa adequada deixou as universidades federais, por exemplo, à mercê da chamada
“indústria dos precatórios” – conluios de burocratas, sindicalistas e advogados, com
eventual complacência de juízes, que obtinham decisões judiciais obrigando as
universidades a pagar dívidas trabalhistas inexistentes ou superestimadas. A plena
14
estruturação da AGU em 2000-2002 permitiu-lhe atuar contra essa e outras formas
de pilhagem “legal” de dinheiro público. Apenas a impugnação de cálculos e laudos
periciais irregulares no ano de 2001 evitou pagamentos indevidos de cerca de R$3
bilhões.
Um órgão com status de ministério, diretamente subordinado ao presidente, a
Corregedoria-Geral da União – CGU foi criado em 2001, com a missão específica de
prevenir e investigar denúncias de irregularidades no governo. Em 2002 a estrutura
da CGU foi fortalecida pela incorporação da Secretaria Federal de Controle,
responsável pela tomada de contas de todos ordenadores de despesa no âmbito do
Executivo.
Em 1999, FHC incumbiu uma comissão de elaborar e posteriormente aplicar um
código de ética para ministros e altos funcionários do governo federal. Ao aprovar o
código proposto, em meados de 2000, o presidente disse: “A existência de um código
e de uma instância reputada e isenta de apuração servirá de defesa e anteparo para a
insensata chuva de divulgação de denúncias e insinuações infundadas contra o
administrador público, evitando a condenação sem julgamento”. A preocupação com
denúncias infundadas se explica por fatos que marcaram o começo do segundo
mandato de FHC, e sinaliza uma inflexão importante na discussão pública da questão
da corrupção no Brasil.
IV - “Denuncismo” e combate à corrupção
A ascensão e queda de Collor provaram o poder das denúncias de corrupção como
arma política. A oposição usou essa arma contra o presidente Fernando Henrique
Cardoso legitimamente, no seu papel de fiscal do governo. E eventualmente recorreu
a ela de duas formas questionáveis mas inevitáveis no calor da luta política: pintando
com cores de escândalo o que não passava de crítica a políticas do governo; e
tentando transformar suspeitas ou meras insinuações em prova de culpa no tribunal
da mídia.
No papel de fiscal do governo, a oposição seguiu e ocasionalmente pautou a mídia em
denúncias que claramente exigiam investigação: suspeitas de suborno e tráfico de
influência na contratação do sistema de vigilância eletrônica da Amazônia – Sivam;
compra de votos de deputados para a aprovação, em 1997, da emenda constitucional
que permitiu a reeleição de presidente, governadores e prefeitos; suposto vazamento
15
de informações do Banco Central às vésperas da desvalorização do real em 1999, para
citar três casos de grande repercussão.
Os principais alvos da crítica travestida de escândalo foram as privatizações e o
Programa de de Reestruturação do Sistema Financeiro – Proer. O PT e outros grupos
de esquerda colaram nas privatizações os carimbos de “neoliberal”, “entreguista”, e
atacaram o Proer por supostamente distribuir dinheiro público a “banqueiros
falidos”. Sindicatos de funcionários públicos e empregados de empresas estatais
temiam que a privatização trouxesse perda de empregos e redução de salários e
outras vantagens. Críticas equivocadas mas admissíveis. Para aumentar sua
repercussão, no entanto, a oposição tentou persistentemente liga-las a suspeitas de
irregularidades. Luiz Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações, e
André Lara Rezende, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social – BNDES, demitiram-se em 1999 depois que a licitude da sua atuação no
processo de privatização da telefonia foi questionado pela mídia e numa audiência
pública no Senado. Parlamentares da oposição moveram processos contra o ministro
da Fazenda e o presidente do Banco Central, entre outros, por sua atuação no Proer.
O caso mais rumoroso de julgamento pela mídia atingiu Eduardo Jorge Caldas
Pereira, a quem eu substituí à frente da Secretaria-Geral da Presidência em 1998,
quando ele se afastou para coordenar a campanha à reeleição de FHC. Em 1999, uma
comissão do Senado constatou que o presidente do Tribunal Regional do Trabalho de
São Paulo, investigado por desvio de dinheiro público na construção de uma nova
sede do tribunal, fizera várias ligações para a Secretaria-Geral quando Eduardo Jorge
a chefiava. Eduardo Jorge respondeu aos senadores numa audiência pública e abriu
seus dados fiscais e bancários. Isso não impediu que uma avalanche de denúncias as
mais variadas desabasse sobre ele, produzida por uma força tarefa ad hoc de
parlamentares, jornalistas e membros do Ministério Público Federal.30
A oposição investiu no “caso EJ” apostando que ele teria implicações semelhantes ao
“caso PC”, de Paulo César Farias, o gerente de campanha cujos negócios no governo
levaram ao impeachment de Collor. Essa expectativa se frustrou. Depois de meses
produzindo manchetes, a campanha contra Eduardo Jorge não produziu provas que
sustentassem a apresentação de uma única acusação formal. Assim os acusadores
viraram acusados. Depois de anos na justiça, vários dos principais órgãos de
imprensa do país, incluindo a revista Veja e os jornais O Globo e Folha de S. Paulo,
tiveram que se retratar e indenizar Eduardo Jorge por danos morais. Dois membros
do Ministério Público Federal estão sendo processados por acusações que
anteciparam pela mídia e afinal não conseguiram sequer apresentar em juízo.31
16
O ex-presidente do TRE de São Paulo, Nicolau dos Santos Filho, está preso. O
senador senador Luis Estevão Martins foi cassado por envolvimento no caso como
empreiteiro da obra do tribunal e recorre em liberdade de uma sentença de prisão.
Os processos de privatização da telefonia e outras empresas passaram pelo escrutínio
do Congresso, do Tribunal de Contas da União – TCU e da justiça, sem que se
achasse nada para os invalidar. A justiça inocentou o ex-ministro das Comunicações e
o ex-presidente do BNDES. Uma sentença do Tribunal Regional Federal de São Paulo
em 2010 confirmou o que o juíz de primeira instância, comissões do Congresso e o
TCU haviam concluído: Luiz Carlos Mendonça de Barros e André Lara Rezende
agiram dentro de suas atribuições legais e de acordo com o interesse público, para
que houvesse mais de um candidato no leilão de privatização de uma das principais
áreas de concessão dos serviços de telefonia.32
O PT e seus aliados na esquerda e nos sindicatos agitaram a bandeira antiprivatização
nas eleições de 2002, 2006 e, com menos ênfase, 2010. O governo Lula
nada fez, porém, para rever privatizações do período anterior.
O Proer transformou-se de escândalo em motivo de orgulho nacional quando o
sistema bancário brasileiro passou com distinção pelo teste de stress da crise
financeira de 2008-2009. “O Brasil está firme porque fizemos o que tinha que ser
feito”, declarou o presidente Lula numa matéria paga numa revista americana no
começo de 2009. “Os bancos brasileiros são sólidos e rentáveis, graças à estabilidade
criada pelo antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso”, acrescentou o
presidente do Banco Central do Brasil.33
Investigações do Senado e do TCU não chegaram a nada que invalidasse o contrato
do Sivam. A implantação do sistema teve sinal verde, encerrando a guerra comercial
entre uma empresa francesa e a empresa americana finalmente contratada.34 Duas
vítimas não totalmente inocentes ficaram pelo caminho: o comandante da Força
Aérea se demitiu e um diplomata teve a carreira truncada, não por atos de corrupção
mas por comportamentos impróprios.
Dois deputados renunciaram para evitar a cassação depois da divulgação de uma
gravação em que admitiam haver recebido suborno dos governadores dos respectivos
estados para votar a emenda constitucional que permitiu a reeleição. A tentativa da
oposição de implicar no caso o ministro Sérgio Mota, citado na mesma gravação, não
foi adiante por falta de provas.
O então presidente, Francisco Lopes, e dois diretores do Banco Central estão sendo
processados e um banqueiro cumpre pena de prisão por peculato e gestão
17
fraudulenta na crise cambial de 1999. Curiosamente, o banqueiro quebrou porque
apostou até o último momento a favor do real, quando praticamente todos os outros
se prepararam para a desvalorização. Se ele pagava por informação privilegiada,
como se suspeitou, o privilégio custou-lhe caro.
Nem a crise cambial trouxe de volta a inflação, como o governo chegou a temer, nem
o bombardeio de denúncias desestabilizou o governo, como a oposição podia esperar.
Mas ambos abalaram o apoio a FHC no Congresso e na opinião pública. A economia
se recuperou em 2000 e resistiu a uma crise no abastecimento de energia elétrica em
2001 e ao nervosismo dos mercados financeiros depois dos atentados de setembro de
2001 nos Estados Unidos. O sentimento oposicionista do país não chegou a se
reverter, porém, e preparou o terreno para a vitória de Lula na eleição presidencial de
2002.
Sentindo o momento favorável e buscando conquistar o voto centrista, Lula optou
por uma postura moderada em sua quarta campanha presidencial. Evitou ataques
aos adversários e não explorou o tema da corrupção. Na reta final da campanha, deu
declarações condenando a política do “denuncismo”.35 Sem saber, antecipava a
principal linha de defesa que adotaria quando seu próprio governo tornou-se alvo de
denúncias.
V - A corrupção na névoa da luta política
Ironia da história: um dos autores do requerimento para instalar a CPI que levou ao
impeachment de Collor foi José Dirceu, do PT, então em seu primeiro mandato de
deputado federal. De 1995 a 2001 ele foi presidente nacional do PT, eleito e duas
vezes reeleito com apoio de Lula. Em 2002, coordenou a campanha presidencial de
Lula. Ao assumir a presidência, Lula fez dele seu principal ministro, chefe da Casa
Civil, com gabinete no Palácio do Planalto e funções de coordenador do governo e
articulador político junto aos partidos aliados. Para auxilia-lo como subchefe da Casa
Civil para Assuntos Parlamentares, Dirceu trouxe Waldomiro Diniz, que o
assessorara na CPI sobre Collor. No começo de 2004, veio a público um video
gravado em 2002, no qual Diniz pedia a um banqueiro de jogo do bicho contribuições
de campanha para candidatos da coalizão de Lula e uma comissão para si mesmo.
Diniz foi demitido. A oposição exigiu a demissão de Dirceu. Lula manteve o ministro
e garantiu que toda denúncia sobre seu governo seria apurada pelas autoridades
competentes.36
18
Divergências entre membros da Polícia Federal e do Ministério Público atrasaram as
investigações sobre Diniz. Cinco anos depois, ele foi condenado em primeira
instância ao pagamento de multa num processo civil por improbidade administrativa
e tráfico de influência na renovação de um contrato entre um banco federal e uma
empresa multinacional, quando já era subchefe da Casa Civil. Sete anos depois, em
dezembro de 2010, o Ministério Público o acusou perante a justiça criminal pelos
mesmos fatos.37
Os aliados do governo bloquearam a instalação de uma comissão do Senado para
investigar Diniz. Quando a comissão foi finalmente instalada, em meados de 2005, o
governo e seus aliados se debatiam com outro escândalo muito mais grave, que já
derrubara Dirceu e faria Lula pensar em renunciar.
Entre a eleição de 2002 e a posse de Lula, Dirceu tentou trazer para sua coalizão o
PMDB, partido com a maior representação no Congresso, que apoiara FHC e seu
candidato, José Serra. Na última hora, Lula desautorizou a negociação; não quis tirar
ministérios e outros cargos dos partidos que já o apoiavam, para acomodar um aliado
problemático, notoriamente voraz e dividido. O apoio da maioria do Congresso ao
novo governo teria que ser buscado por outros caminhos.
O “mensalão” foi a resposta a esse problema.
A prática é conhecida em municípios do interior do Brasil: para garantir aprovação
automática de seus projetos ou simplesmente evitar aborrecimentos, o prefeito
compra o apoio de vereadores mediante pagamentos mensais em dinheiro vivo.
Tanto a origem quanto o destino do dinheiro são ilegais, o que torna vereadores e
prefeito cúmplices numa cadeia de corrupção. Na outra ponta estão geralmente
empreiteiros e outros fornecedores do governo, que mandam a conta para o
contribuinte via superfaturamento de obras, produtos e serviços.
Em junho de 2005, o líder na Câmara dos Deputados de um dos partidos da coalizão
governista, Roberto Jefferson, do PTB, revelou à Folha de S. Paulo que um esquema
desses funcionava na Câmara dos Deputados. “É mais barato pagar o exército
mercenário do que dividir poder”, ele explicou. Apontou o tesoureiro do PT, Delúbio
Soares, como operador do esquema, encarregado da distribuição do dinheiro aos
parlamentares. Disse que Dirceu e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tinham
conhecimento do esquema, e que há meses ele pessoalmente o denunciara ao
presidente da República.38
19
Dirceu durou dez dias no cargo. Despediu-se do Palácio do Planalto numa solenidade
pública, homenageado por colegas de governo e companheiros de partido, incluindo
sua sucessora, Dilma Rousseff, e reassumiu o mandato de deputado federal.
Uma CPI confirmou a existência do esquema de compra de votos e recomendou a
cassação de dezoito deputados. Dirceu, Jefferson e mais um deputado foram
cassados. Outros quatro renunciaram para evitar a cassação. Os demais foram
absolvidos.
A CPI e órgãos de imprensa traçaram a origem do dinheiro do “mensalão” até uma
agência de publicidade e dois bancos de pequeno porte, por sua vez alimentados por
contratos e outros favores do governo federal e por empresas concessionárias de
serviços públicos.
Em agosto o marqueteiro da campanha presidencial confessou à CPI ter recebido
uma parte substancial de seus honorários por meio de uma conta no exterior, que
abrira seguindo instruções de Marcos Valério Fernandes de Souza, dono da agência
de publicidade que viria a ser uma peça chave do “mensalão”.39
Há relatos que a essa altura Lula chegou a temer que não completaria o mandato
presidencial, muito menos ganharia um segundo. Sua primeira reação foi tentar se
dissociar do escândalo. Num pronunciamento pela TV, diante de seu ministério, ele
disse: “Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive
conhecimento”. E acrescentou: “O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde
errou, tem que pedir desculpas...”.40
O PT pediu desculpas numa nota da direção nacional: “os atos que nos
comprometem, moral e politicamente perante os brasileiros, foram cometidos por
dirigentes do PT, sem o conhecimento de suas instâncias”.41
Em abril de 2006, a PGR denunciou quarenta pessoas por participação no que
descreveu como uma “sofisticada organização criminosa”, cujo núcleo seriam Dirceu,
Delúbio, o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, e o presidente nacional do partido,
José Genoíno.
Como dirigentes máximos, tanto do ponto de vista formal quanto material,
do Partido dos Trabalhadores, os denunciados, em conluio com outros
integrantes do Partido, estabeleceram um engenhoso esquema de desvio de
recursos de órgãos públicos e de empresas estatais e também de concessões
de benefícios diretos ou indiretos a particulares em troca de ajuda
financeira.
20
O objetivo desse núcleo principal era negociar apoio político, pagar dívidas
pretéritas do Partido e também custear gastos de campanha e outras
despesas do PT e dos seus aliados.42
A denúncia foi uma demonstração de independência do procurador-geral, nomeado
por Lula em 2005 por um mandato de dois anos, como prevê a Constituição.
O STF, que concentra a competência para julgar atos praticados por ministros e
membros do Congresso, aceitou a denúncia praticamente na sua totalidade. A oitiva
de testemunhas e análise de outras provas no processo se estendeu até 2010. Ainda
não há data prevista para o julgamento.
Sem esperar pela decisão do STF, a posição de Lula e seu partido evoluiu, com o
tempo, primeiro para minimizar a gravidade dos atos denunciados, depois para negálos.
Segundo uma versão, o dinheiro entregue aos deputados não se destinaria a
comprar seu apoio no Congresso, como sugerido pelo termo “mensalão”, mas ao
pagamento de dívidas de campanha pelo “caixa 2” , uma prática ilícita mas
generalizada. Segundo outra versão, sustentada com desenvoltura crescente pelo
próprio Lula, todo o escândalo seria uma armação da oposição e da mídia
conservadora contra o primeiro homem do povo a se tornar presidente do Brasil.
A oposição não tentou derrubar Lula. Mesmo que houvesse razões para propor seu
impeachment, avaliou que não teria peso para mover a maioria do Congresso nessa
direção e, se o conseguisse, poderia dividir o país numa batalha política arriscada
para a democracia.
Lula não era Collor. Sua base no Congresso balançou, sofreu defecções mas afinal se
uniu, numa reação de autopreservação ditada pela própria extensão do seu
comprometimento no escândalo. Lula perdeu popularidade mas, mesmo no pior
momento, manteve o apoio dos militantes de seu partido, de boa parte dos sindicatos
e de outras organizações de base. Por último, mas não menos importante, o bom
desempenho da economia desde o fim de 2004 deu fôlego ao presidente depois de
um começo de governo difícil, quando teve que tomar medidas duras para conter um
repique da inflação e validar suas credenciais de governante responsável perante
empresários e investidores.
Sobre esse pano de fundo funcionaram as versões do “caixa 2” de campanha e da
conspiração conservadora. Elas deram argumentos aos militantes do PT e outros
apoiadores fiéis de Lula. E, no público em geral, reforçaram a crença que “todos os
políticos são iguais” e golpes baixos são uma realidade feia mas inevitável na política.
21
Outras cenas explícitas de baixa política testariam o limite de tolerância do público.
Antonio Palocci, embora citado na entrevista que denunciou o “mensalão”, passou
incólume pelo escândalo. Seu papel de fiador da continuidade da política econômica
de FHC no governo Lula valia-lhe uma certa imunidade junto aos empresários, à
imprensa e à própria oposição. Em março de 2005, porém, semanas antes da
formalização da denúncia do “mensalão” pela PGR, um jornal noticiou que Palocci
compartilhava com amigos e ex-colaboradores da prefeitura de Ribeirão Preto uma
mansão para reuniões de negócios e recreação num bairro nobre de Brasília. O
ministro negou que frequentasse a “República de Ribeirão”, como ficou conhecida.
Mas o caseiro da mansão confirmou que o vira lá mais de uma vez. No afã de
desacreditar a denúncia, aliados do governo fizeram circular no Congresso o extrato
de uma conta do caseiro na Caixa Econômica Federal, tentado provar que ele
recebera dinheiro para comprometer o ministro. O tiro saiu pela culatra: o caseiro
provou a legitimidade do dinheiro e a violação do seu sigilo bancário acabou
precipitando a demissão do presidente da Caixa e do ministro.43
Em julho de 2005, um militante do PT foi detido num aeroporto de São Paulo com
uma grande soma de dinheiro vivo em reais numa valise e dólares dentro da cueca. O
assessor voltava para o estado do Ceará, onde trabalhava para um deputado estadual
que era irmão do então presidente nacional do PT, José Genoíno, também
denunciado no “mensalão”. A origem e o destino do dinheiro não foram
esclarecidos.44
Em setembro de 2006 um grupo de militantes do PT foi detido num hotel de São
Paulo com outra grande soma de reais e dólares numa mala, quando negociava a
compra de um dossiê forjado contra o candidato do PSDB ao governo do estado. Um
dos detidos era funcionário do comitê de reeleição de Lula. As investigações da
Polícia Federal chegaram a outro funcionário do comitê de reeleição e amigo pessoal
de Lula e a um assessor especial da Presidência da República. Lula chamou-os de
“aloprados” – mais desastrados do que delinquentes. Todos foram afastados. Um
diretor do Banco do Brasil se demitiu por envolvimento no escândalo. A origem do
dinheiro não foi esclarecida.45
Nada disso impediu que Lula recuperasse popularidade, lenta mas continuamente,
até liderar o primeiro turno da eleição presidencial em outubro de 2006 e vencer o
segundo turno contra Geraldo Alckmin, do PSDB.
22
No segundo mandato de Lula, as denúncias passaram ao largo do Palácio do Planalto,
exceto por um ato final: em setembro de 2010, a sucessora de Dilma Rousseff na
chefia da Casa Civil demitiu-se depois de denúncias de tráfico de influência.46
Ao todo nove ministros se demitiram por suspeitas de corrupção ou mau uso de
dinheiro público nos oito anos de governo Lula:
Benedita da Silva, da Secretaria de Assistência e Promoção Social, por
pagamento de despesas particulares com dinheiro público (2004);
José Dirceu, da Casa Civil, por envolvimento no “mensalão” (2005);
Romero Jucá, do Ministério da Previdência, por irregularidades na tomada de
empréstimos de um banco federal (2005);
Antônio Palocci, do Ministério da Fazenda, por quebra de sigilo bancário
(2006);
Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação, por interferência em fundos de
pensão e envolvimento no “mensalão” (2006);
Silas Rondeau, do Ministério de Minas e Energia, por envolvimento em
fraude e desvio de recursos em obras públicas (2007);
Walfrido Mares Guia, da Secretaria de Relações Institucionais, por
envolvimento no “mensalão” (2007);
Matilde Ribeiro, da Secretaria de Igualdade Racial, por pagamento de
despesas particulares com dinheiro público;
Erenice Guerra, da Casa Civil, por tráfico de influência (2010).
Um aliado do governo, Severino Cavalcanti, foi destituído da presidência da Câmara
dos Deputados e perdeu o mandato de deputado por cobrar comissão de um
fornecedor da Câmara. O ex-presidente José Sarney, de volta a Brasília como senador
desde 1991, aliou-se a Lula em 2002, elegeu-se presidente do Senado em 2009 e
manteve o cargo sob denúncias de nepotismo e má gestão, sempre com apoio do
presidente da República.
Denúncias de loteamento político e corrupção atingiram a diretoria de empresas e
bancos federais. Em 2010, peritos da Polícia Federal encontraram indícios de
superfaturamento somando R$1,4 bilhão em cinco grandes obras da Petrobras
23
licitadas no governo Lula.47 O Tribunal de Contas da União recomendou a paralisação
da construção de duas refinarias por irregularidades.48
Nesse e outros escândalos, o governo seguiu em geral a mesma linha de defesa do
“mensalão”: negou os fatos e/ou atribuiu sua repercussão ao “denuncismo” da
oposição e da mídia, vacinando seus apoiadores e reforçando no público a crença que
todos são iguais no vale-tudo da política.
A oposição deu duas grandes contribuições para essa percepção. As investigações
sobre o “mensalão” constataram que o dono de agência de publicidade envolvido
prestara o mesmo tipo de serviços ilícitos, anos antes, à candidatura à reeleição de
um governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, do PSDB. Em 2010, o governador
do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do DEM, cairia depois da divulgação de um
video em que aparecia recebendo dinheiro vivo de um colaborador, parte de um
esquema que beneficiava outros membros do Executivo e do Legislativo locais.
A popularidade de Lula aumentou, apesar de tudo, impulsionada pelo bom
desempenho da economia e pela distribuição de renda via programas sociais e
aumento do salário-mínimo. O escândalo envolvendo a sucessora de Dilma Rousseff
na Casa Civil pode ter ajudado a levar a eleição presidencial para o segundo turno,
mas nem esse, nem os demais escândalos impediram a vitória da candidata ungida
por Lula.
A tática de embaçar as percepções públicas da corrupção na névoa da luta política
deu resultado.
VI – Original, mas sem inocência
Nem todos os filiados e simpatizantes do PT deram-se por satisfeitos com os
desmentidos oficiais dos escândalos do governo Lula. Muitos atribuíram os “erros”
dos dirigentes às tentações do poder, como se o partido da transformação e da ética
tivesse sofrido o contágio da velha política instalada em Brasília. O depoimento de
Paulo de Tarso Venceslau à CPI do “mensalão” pôs em xeque essa visão mais sóbria,
mas ainda assim autoindulgente.
Petista histórico, ex-secretário municipal de Finanças de Campinas e São José dos
Campos, Venceslau repetiu para a CPI o relato que já fizera a vários meios de
comunicação, sobre os métodos de arrecadação de fundos usados por Lula e seu
círculo íntimo de velhos companheiros sindicalistas.49 Segundo ele, no começo da
24
década de 1990, varias prefeituras paulistas controladas pelo PT contrataram sem
licitação serviços de assessoria tributária de uma empresa denominada Consultoria
para Empresas e Municípios – CEPEM. Parte do dinheiro pago pelas prefeituras a
essa empresa seria repassado a Paulo Okamoto, então secretário de finanças do PT,
ex-tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, presidente nacional do
Sebrae no governo Lula, apontado como o amigo que pagava contas pessoais do
presidente, hoje colaborador e sócio do ex-presidente em sua firma de palestras.50 O
dinheiro desviado desse modo teria financiado, entre outras coisas, a Caravana da
Cidadania, que preparou a candidatura presidencial de Lula em 1994. O
intermediário entre a CEPEM e as prefeituras petistas era Roberto Teixeira, amigo e
compadre de Lula, dono da casa onde o então presidente do PT morava de favor em
São Bernardo.
Venceslau detalhou esse esquema numa carta dirigida a Lula e copiada para outros
dirigentes do PT em 1995. Esperou dois anos por providências. Resolveu a vir a
público em 1997, numa entrevista a um jornal, quando se convenceu que Lula
impedia a apuração interna dos fatos.51 Na época, a publicação da entrevista levou a
direção nacional do PT a instalar uma comissão de ética, presidida pelo então
deputado federal Hélio Bicudo e integrada pelo então vereador José Eduardo
Cardozo, hoje ministro da Justiça.52 A comissão concluiu pela procedência da
denúncia, embora inocentando Lula. Este, porém, atacou violentamente Venceslau,
atribuiu a repercussão do caso na mídia a uma “orquestração” do governo Fernando
Henrique Cardoso e se afastou da direção do PT, queixando-se de falta de
solidariedade do partido.53 Imprensado entre a conclusão da comissão de ética e a
reação de Lula, o PT optou por expulsar Venceslau e inocentar todos os envolvidos no
esquema.
Lula processou Paulo de Tarso Venceslau e o Jornal da Tarde por danos morais e
perdeu em primeira instância.54
Roberto Teixeira processou Hélio Bicudo por danos morais por afirmações sobre o
caso feitas em seu livro de memórias.55 Em 2011 a ação foi julgada improcedente em
primeira instância.56
O assassinato de Celso Daniel em janeiro de 2002 voltou a chamar atenção para as
relações financeiras do PT com as prefeituras sob seu controle. A CPI do “mensalão”
ouviu a esse respeito dois irmãos da vítima, João Francisco Daniel e Bruno Daniel.57
25
Celso Daniel cumpria seu terceiro mandato como prefeito de Santo André, na Grande
São Paulo, e era citado como provável coordenador da campanha presidencial de
Lula quando foi sequestrado, torturado e executado com vários tiros. A polícia
paulista deteve seis suspeitos e, baseada nas suas confissões, concluiu que haviam
sequestrado o prefeito por engano, confundido-o com um empresário. Na época,
João Francisco contestou a tese de crime comum e levantou a suspeita de motivação
política. Segundo ele, funcionava em Santo André um esquema de corrupção que
alimentava o caixa do PT com dinheiro extorquido de empresas de ônibus urbanos e
outros fornecedores da prefeitura. Celso Daniel respaldava o desvio de dinheiro
público para o partido, mas não aceitou que parte do dinheiro fosse embolsado por
colaboradores seus, entre eles Sérgio “Sombra” Gomes da Silva, seu assessor e amigo,
que estava em sua companhia no momento do sequestro. Depois do assassinato, duas
pessoas próximas do prefeito teriam confirmado a existência do esquema a João
Francisco: Gilberto Carvalho, então secretário municipal de Santo André,
posteriormente chefe de gabinete de Lula no Palácio do Planalto, atual secretário
geral da Presidência República; e Míriam Belchior, ex-mulher de Celso Daniel,
também secretária municipal, posteriormente assessora especial de Lula na
Presidência da República, atual ministra do Planejamento. Carvalho teria contado a
João Francisco que entregou pessoalmente dinheiro do esquema para José Dirceu,
então presidente do PT.58
A direção do PT, com Dirceu à frente e ajuda do advogado e deputado federal
Eduardo Greenhalgh, mobilizou-se para pressionar as autoridades estaduais e evitar
que o caso respingasse em Lula.59
Uma liminar do STF proibiu o Ministério Público Federal de investigar Dirceu sobre
seu envolvimento no desvio de dinheiro da prefeitura.60
O Ministério Público de São Paulo pediu à polícia que reabrisse o inquérito sobre o
assassinato de Celso Daniel. A polícia manteve a tese de crime comum. Mas a
investigação dos próprios procuradores levou-os a denunciar Sérgio Gomes da Silva
como mandante do crime. Sua motivação não seria exatamente política, mas o lucro
privado que extraía do esquema de corrupção. Ele teve a prisão preventiva decretada
em 2003, foi solto em 2004 e aguarda julgamento em liberdade.61
Bruno Daniel confirmou para a CPI o depoimento de João Francisco sobre o desabafo
de Gilberto Carvalho após o assassinato de Celso Daniel. Meses depois, Bruno e sua
família deixaram o Brasil por causa de repetidas ameaças de morte e foram acolhidos
como refugiados políticos pela França.62 Eles tinham motivos para levar a sério as
26
ameaças: nos dois anos seguintes ao crime, seis pessoas envolvidas de diferentes
maneiras nas investigações foram mortas a tiros.63
O assassinato de Celso Daniel pode nunca ser totalmente esclarecido. Mas o esquema
de corrupção que acabou exposto pelo assassinato foi suficientemente comprovado
pelas investigações da polícia, do Ministério Público e da Câmara Municipal de Santo
André. Respondem a processo por isso, além de Sérgio Gomes da Silva, outro
empresário, um ex-vereador do PT, na época secretário municipal, e mais dez
pessoas, na maioria funcionários da prefeitura.64 A eles se juntou Gilberto Carvalho,
denunciado como intermediário entre a prefeitura e a direção do PT, na pessoa de
José Dirceu.65
Um secretário municipal de Mauá, na Grande São Paulo, depôs ao Ministério Público
de Santo André que em 1998 Lula e José Dirceu procuraram o então prefeito de
Mauá, Oswaldo Dias, e cobraram dele maior esforço de arrecadação de fundos para a
campanha eleitoral daquele ano. Segundo o secretário, presente à reunião, Lula teria
dito: “Pô, Oswaldo, tem que arrecadar como faz o Celso Daniel. Você quer que a gente
ganhe a eleição como?”66
Há registros semelhantes em outras prefeituras e governos estaduais petistas. Os
casos CEPEM e Santo André se destacam porque expõem a corrupção no núcleo
dirigente do PT dez anos antes da conquista da Presidência da República. Nenhuma
“inocência original”, portanto. Se os sintomas da doença se acentuaram na chegada
do partido ao centro do poder em Brasília, seu vírus veio plenamente desenvolvido do
berço político-sindical do PT em São Paulo.
Não é um vírus qualquer.O PT não se limitou a fazer o que todos fazem, como muitos
simpatizantes e filiados do partido querem crer. Esquemas de corrupção
protagonizados por caciques municipais e regionais e/ou conluios ad hoc de políticos,
funcionários e empresários atrás de recursos federais parecem brincadeira
comparados com o vasto esquema ou sistema instalado no comando do maior partido
brasileiro, como deixa claro a denúncia do “mensalão” pela PGR.
Caso especialíssimo de divisão do trabalho intelectual e braçal: os quadros vindos da
esquerda comunista dão um álibi ideológico para os “erros” do PT – a dupla moral
que despreza a legalidade burguesa e a hipocrisia das elites, mas justifica o uso de
meios baixos em nome dos altos fins da vanguarda revolucionária. Quem bota a mão
na massa, porém, são operadores financeiros vindos, na maioria, do movimento
sindical. Seus métodos foram testados dentro dos sindicatos antes de chegar às
27
prefeituras? Não se pode afirmar com certeza. Mas o caso Bancoop mostra que a
arrecadação de “recursos não contabilizados” não distingue dinheiro público em geral
e dinheiro dos próprios trabalhadores.
Em outubro de 2010, a justiça aceitou denúncia contra o tesoureiro nacional do PT,
João Vaccari Neto, e outras cinco pessoas, por estelionato e outros delitos como
dirigentes da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo – Bancoop.67
Fundada em 1997 pelo então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo,
depois deputado federal e presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, a Bancoop
acumulou um déficit financeiro de R$ 100 milhões. Mesmo socorrida por fundos de
pensão de empresas estatais no começo do governo Lula, deixou de entregar
apartamentos a centenas de cooperados e impôs a muitos outros aumentos
injustificados das prestações. Isso levou o Ministério Público a investiga-la a partir de
2007.68 A abertura dos seus registros bancários pela justiça revelou desvios estimados
em R$ 170 milhões. O dinheiro foi parar nos bolsos de seus diretores e em
campanhas eleitorais do PT, inclusive a campanha presidencial de Lula em 2002.69
O modo de operar continua o mesmo. O que mudou com a conquista da Presidência
da República foi a escala de operação. Antes o PT poderia ter acesso indireto e
eventual a recursos federais por meio dos fundos de pensão em cuja diretoria tinham
assento sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores. A partir de 2003, os
operadores do partido ganharam acesso direto e permanente ao orçamento da União
e, principalmente, aos cofres dos bancos e empresas estatais, com as imensas
oportunidades de manipulação política e enriquecimento pessoal daí decorrentes.
Para muitos desses operadores, poder e dinheiro parecem ter se tornado objetivos
suficientes por si mesmo. Socialismo? Virou um rótulo esmaecido, que não assusta
mais os amigos e clientes empresários nem banqueiros.
Em vez disso, os quadros do PT que ainda sentem falta de uma causa mais nobre
apresentam-se eventualmente como agentes de um arremedo de “via chinesa” de
desenvolvimento para o Brasil: economia com forte intervenção estatal, só que mais
aberta para o exterior; comando centralizado burocrático com pendores autoritários,
só que mais permeável às aspirações populares em geral e dos trabalhadores e
funcionários sindicalizados em especial. Até agora, os resultados dessa versão
globalizada do velho capitalismo de estado brasileiro estão longe de ser brilhantes,
seja em termos de crescimento, seja de inclusão social. Mas alguma visão
“estratégica” deve parecer-lhes melhor que nada para justificar o patrocínio de
interesses privados com dinheiro público na escala praticada pelo governo Lula.
28
VII - Transparência como um valor democrático
Esta narrativa deteve-se até aqui na “alta corrupção”, por assim dizer. Um relato mais
completo deveria abordar o problema onde ele tem menos repercussão na mídia mas
mais impacto direto no cotidiano dos cidadãos: a corrupção dos escalões inferiores da
administração pública, incluindo as esferas estadual e municipal.
Hernando de Soto mostrou como regulamentos complicados e estruturas estatais
ineficientes esterilizam o patrimônio acumulado pelos pobres e os condenam a morar
e trabalhar na semi-ilegalidade.70 Seria possível mapear as múltiplas formas de
prevaricação por meio das quais autoridades e funcionários públicos inescrupulosos
se aproveitam desse estado de coisas.
A corrupção policial mereceria um capítulo à parte, pelo impacto dramático que tem
na vida de milhões de pessoas e pela sensação de insegurança que causa em quase
todos. O inimigo mais perigoso da guerra que o Rio de Janeiro trava contra o crime é
a corrupção entrincheirada na polícia estadual.71
O panorama do Brasil a esse respeito é desigual como o próprio país. É geralmente
muito ruim nas regiões mais pobres e atrasadas. O estado de São Paulo, que
acompanho mais de perto, fez avanços importantes na modernização da polícia,
incluindo o combate à corrupção em suas fileiras, com resultados positivos de
redução da criminalidade.72 Recentemente, o governo do estado inaugurou um
sistema de licenciamento online para empresários e profissionais autônomos que
pode ser um golpe duro na prática tradicional de criar dificuldades para vender
facilidades na administração pública.73 A Corregedoria Geral do estado foi fortalecida,
em moldes semelhantes à sua contraparte federal.
As várias camadas da corrupção se interpenetram, no entanto. O país como um todo
dificilmente verá avanços mais importantes na base se não atacar o problema pelo
topo: pela cúpula dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário nos níveis federal e
estadual.
Com isso não quero dizer que a sociedade civil e os governos locais não têm nenhum
papel no combate à corrupção. Por certo que têm. Mas atitudes e práticas tradicionais
mudam, por definição, devagar. A função pedagógica da lei implica a possibilidade
acelerar a mudança dos códigos informais de comportamento enraizados na tradição.
Isso traz o problema de volta para os que têm responsabilidade de fazer e aplicar leis
nos níveis estadual e federal do poder.
29
Começando pela aplicação da lei: os 16 mil juízes estaduais e federais são a elite do
serviço público brasileiro. São os servidores melhor remunerados – tanto ou mais
que seus colegas dos países ricos. Os melhor preparados – os concursos para a
magistratura selecionam bacharéis formados pelas melhores escolas de direito do
país. Mas não os mais eficientes .
A maior queixa do público e dos próprios juízes em relação ao Judiciário é sua
lentidão. Ela cria insegurança na esfera civil e uma mistura de impunidade e
arbitrariedade na esfera criminal. Em alguns estados, a desorganização da justiça
criminal é tamanha que as prisões estão vazias de assassinos e outros criminosos
perigosos e cheias de pessoas pobres que esperam julgamento por delitos menos
graves. Muitas ficam anos presas sem o devido processo legal.
Nos delitos contra a administração pública, a impunidade reina absoluta. Uma
análise de processos por corrupção no governo federal concluiu que o risco de um
funcionário corrupto sofrer condenação judicial é de menos de 5%. O risco de
cumprir pena de prisão é quase zero.74 Celebridades como parlamentares e altos
funcionários podem ser apresentados à mídia algemados, como uma satisfação à
opinião pública. Além desse constrangimento, o pior que lhes pode acontecer são dias
ou no máximo semanas de prisão temporária. Entre a denúncia pela mídia e a
condenação ou absolvição dos suspeitos pela justiça passam-se facilmente dez anos
ou mais. É nesse intervalo que a névoa da luta política se instala e tolda as percepções
do público sobre a corrupção.
Os juízes reclamam, com razão, das excessivas oportunidades de procrastinação
oferecidas pelos códigos de processo civil e criminal. O corporativismo dos juízes, que
rejeitam a avaliação e cobrança de resultados, também concorre para a lentidão da
justiça. Em algumas instâncias, em alguns estados, a corrupção no próprio Judiciário
é grave.
Esses problemas estão sendo atacados. Pouco a pouco, enfrentando resistências dos
advogados, principalmente, o Congresso avança na discussão e votação de projetos de
modernização dos códigos de processo. A convergência de esforços dos três poderes,
incluindo o presidente Lula, resultou na aprovação, em 2004, de uma emenda
constitucional criando o Conselho Nacional de Justiça como órgão de controle da
magistratura. O conselho tem buscado e em boa medida conseguido envolver os
tribunais federais e estaduais numa agenda de modernização, focada na eliminação
dos gargalos procedimentais e administrativos que atrasam as decisões judiciais.
30
A situação dos legisladores é mais complicada. Para o público, “os políticos” em geral
e os membros do Congresso em especial estão no centro do problema da corrupção.
Percepção injusta, a meu ver. Eu diria que neste relato eles aparecem antes como
coadjuvantes do que protagonistas. Situam-se mais perto do problema que da sua
solução, em todo caso.
Eles podem atuar a favor da solução do problema no papel estrito de legisladores. Há
leis que ainda precisam ser feitas ou emendadas a favor da transparência na
administração pública. Por exemplo, a simplificação dos códigos de processo que
acabei de mencionar. Ou a modernização da lei de licitações, visando simplifica-la e
adequa-la ao uso mais amplo do pregão eletrônico ou presencial, que já se mostrou
um poderoso instrumento contra a corrupção e o desperdício nas compras do
governo. Ou a atualização das normas sobre direito à informação para garantir a
publicação na internet dos atos e dados do governo em formatos legíveis e
reprocessáveis por máquina.
Mas o arcabouço legal-institucional para uma governança democrática está de pé,
erguido sobre o alicerce da Constituição de 1988. O que há para fazer nessa matéria
não é tanto construção nova como manutenção, ajustes e avanços incrementais.
O melhor que o Congresso pode fazer pela transparência, a esta altura, é recuperar
poderes que cedeu nos últimos anos. A popularidade extraordinária de Lula e seu
êxito em neutralizar a oposição e a mídia nos embates sobre corrupção e outros
temas controvertidos fizeram a balança do poder se inclinar excessivamente para o
lado do Executivo. Nesse movimento, o Congresso abriu mão de boa parte de seus
poderes: o poder de legislar, quando deixou o presidente usar cada vez mais
amplamente medidas provisórias com força de lei; o poder de emendar e votar o
orçamento anual, ao aceitar a emissão de créditos orçamentários suplementares por
medida provisória; o poder de fiscalizar o Executivo, quando a maioria governista se
mobiliza para bloquear a convocação de ministros e a instalação ou funcionamento
de CPIs.
A balança pode se inclinar de volta para o outro lado. Um presidente com menos
popularidade, numa situação econômica e fiscal mais difícil, poderá ter que devolver
poderes ao Congresso (ou se entregar mais à barganha clientelista). Mas a posição
dos deputados tem uma fragilidade que é estrutural.
O Brasil adota um tipo peculiar de sistema eleitoral proporcional, dito de lista
aberta, em contraposição ao sistema proporcional de lista pré-ordenada, mais
comum no mundo. O eleitor brasileiro tem a opção de votar num partido ou num
31
candidato específico; a maioria costuma votar num candidato. A soma dos votos no
partido e em seus candidatos determina o número vagas ganhas pelo partido. Essas
vagas são ocupadas, não numa ordem pré-definida pelo partido, mas pelos
candidatos mais votados individualmente.
Cada estado brasileiro é uma circunscrição eleitoral, que elege um mínimo de oito e
um máximo de setenta deputados, de acordo com o tamanho do eleitorado
Os partidos recebem fundos públicos para o seu funcionamento regular, mas os
candidatos a todos os cargos precisam arrecadar contribuições privadas para suas
campanhas. E as campanhas custam cada vez mais caro.
A combinação dessas três características – lista aberta, circunscrições eleitorais
muito grandes e financiamento privado das campanhas – tende a afrouxar os
vínculos entre eleitores, partidos e deputados. A maioria dos eleitores não entende
um sistema no qual vota num candidato e acaba elegendo outro por um cálculo
complicado de quociente eleitoral. De fato, a maioria “perde o voto”, isto é, vota num
candidato que não consegue se eleger. Os partidos mal se identificam, mal se
diferenciam numa confusão de dezenas de siglas e centenas de candidatos por
circunscrição. Os candidatos se afligem tentando sobressair nessa confusão e não ser
ultrapassados por concorrentes do mesmo partido na busca de contribuições e de
votos. Mais da metade não consegue ou nem tenta se reeleger. O resultado final é
uma distância crescente entre representantes e representados, por um lado, e uma
dependência crescente dos deputados em relação ao poder econômico, às
corporações e ao Executivo, por outro lado.
Há anos o Congresso discute uma reforma eleitoral. A maioria dos deputados gosta
mas a maioria dos eleitores desaprova a ideia de financiamento público de
campanha. Existem muitas dúvidas e pouco consenso sobre alternativas de sistema
eleitoral: proporcional com lista pré-ordenada, distrital majoritário, misto. Mas a
situação atual é tão ruim, o desgaste do Congresso é tão grande, que a aprovação de
alguma reforma eleitoral parece provável num futuro próximo.
Por último, mas não menos importante, a cúpula do Executivo. Além da chefia do
governo, a enorme capacidade do presidente de pautar o Congresso e a mídia faz dele
o protagonista incontestável da política nacional. Suas prioridades e opções,
começando pela escolha do seu círculo mais próximo de colaboradores, têm enorme
impacto sobre o funcionamento efetivo das instituições nos três poderes. Os
governadores têm peso semelhante no âmbito dos respectivos estados; os
governadores dos cinco ou seis maiores estados também são atores importantes na
32
política nacional. Faz toda a diferença o presidente e os governadores jogarem seu
peso a favor de novos avanços da democracia, incluindo transparência e
accountability. Eles fazerem isso ou não, em que medida e como, depende de várias
coisas: das oportunidades e desafios que enxergam na situação econômica e social do
país; das expectativas e compromissos da sua base política; em última análise, de
suas convicções pessoais.
O voto para presidente é a carta mais forte que o eleitor tem para jogar uma vez a
cada quatro anos. Se o povo brasileiro aprendeu uma coisa nestes vinte e poucos anos
de jogo democrático, é que é melhor não errar na escolha de um presidente. A
maioria sente que FHC e Lula, com suas circunstâncias, prioridades e estilos pessoais
bem diferentes, foram escolhas certas.
As escolhas do eleitor também dependem da maneira como ele hierarquiza
preocupações, aspirações e valores, com toda a sua complexidade e eventual
ambiguidade. O grau de preocupação do eleitor com a transparência ou, olhando pelo
outro lado, sua margem de tolerância à corrupção parece ser influenciada pelo estado
da economia. Inflação alta e emprego baixo, maior indignação com a corrupção.
Inflação baixa e emprego alto, maior tolerância.
Também pesam na balança as percepções sobre a gravidade e materialidade dos atos
denunciados. Uma coisa é ver e ouvir numa gravação uma alta autoridade pedindo ou
recebendo dinheiro sujo. Outra coisa é decidir se a autoridade foi cúmplice ou
negligente com base em milhares de páginas de documentos e depoimentos que só
poucos jornalistas, investigadores, promotores, advogados e juízes são capazes de
destrinchar.
A experiência pode ter tornado o público mais propenso a dar o benefício da dúvida
aos denunciados pela mídia. Por seu lado, a fragmentação da mídia na era da internet
criou possibilidades quase ilimitadas de selecionar fontes e filtrar informação para
confirmar, em vez de questionar, as crenças de cada segmento do público. O governo
Lula e seus aliados operaram bem nessa nova realidade para vacinar seus apoiadores
fiéis contra as denúncias da oposição e da “mídia conservadora” e diluir seu impacto
no grande público.
Isso tende a diminuir o impacto do “denuncismo”, mas não deve tirar a corrupção da pauta do debate político. Para o aprimoramento da democracia, é melhor que o
combate à corrupção não saia de pauta. Os partidos e líderes que quiserem enfrentar o tema terão, porém, que ser mais cuidadosos com a apresentação de provas einvestir mais no devido processo legal do que no julgamento pela mídia.
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A democracia é um regime de equilíbrio dinâmico mais que de consenso; de
alternância no poder mais que de hegemonia de um líder ou partido. Este é o miolo
do sistema democrático. Enquanto ele continuar funcionando no Brasil, como tem
funcionado, ainda que com tropeços; enquanto houver líderes e partidos dispostos a
sustentar o valor da transparência na competição pelo poder; e se as instituições
derem mais provas ou pelo menos indícios da eficácia do devido processo legal, o país
poderá levar adiante seu aprendizado democrático e deixar para trás a cultura das
transgressões.